CONVERSANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO

 

"Consulta Médica"

Imagem processada pelo ChatGPT

*

TROVAS

*


que Heitor da Silveira mandou ao


mesmo Conde, invernando em Goa

*



Vossa Senhoria creia


que não apura o engenho


fome, se é como a que tenho,


mas afraca e corta a veia.


E quem o contrário sente


está farto em toda a hora,


como estou faminto agora.


Mas Marta, se está contente,


dá-lhe pouco de quem chora.


E pois Vossa Senhoria,


em geral, a tudo acode,


acuda a mim, que só


dar-me no engenho valia.


Esperte esta musa minha,


que o tempo traz sonorenta,


valha-me nesta tormenta


com essa doce mezinha


que só dá vida e a contenta.


Acuda com provisão


não de papel, mas provida


de ouro e prata: que esta vida


não sustentam papéis, não.


De feitor a tesoureiro


ser-me hia trabalho grande;


Vossa Senhoria mande


algum remédio primeiro


com que a morte o ferro abrande.

*


Heitor da Silveira

***




Ajuda de Luís de Camões:

*


Nos livros doutos se trata,


que o grande Aquiles insano


deu a morte a Heitor troiano;


mas agora a fome mata


o nosso Heitor lusitano.


Só ela o pode acabar,


se essa vossa condição


liberal e singular


não mete entre eles bastão


bastante para o fartar.

*



Luiz de Camões

***


A Segunda Opinião

(minha)

*



Perdoai se me intrometo:


Não sei de bastão algum


Que Zás-Trás-Pás-Catrapum


Actuasse qual brometo...


Recomendo uma sangria,


Já que sangrados andamos...


Vejamos, senhor, vejamos


Se o corpo a toleraria


Ou se a alma, essa exigente,


Aprovaria o processo


De sangrar - jamais em excesso -


E manter-se sorridente

*


Diz-me voss`Alma que não,


Que não quer que sangre em vão


Vosso corpo ou vossa mente...


Talvez vapor de mercúrio,


Que me dizeis, Alma, disto?


Ah, por Deus, serei malquisto


Por praticar acto espúrio?


Sanguessugas ou ventosas?


Aceitai! São o futuro


E eu garanto que vos curo


Das sezões mais dolorosas...


Como? Que me haveis chamado?


Charlatão, pantomineiro???


Mas eu nem cobrei dinheiro


Por haver-vos já tratado


De um mal que vos consumia


Com a aguardente que havia


Do jantar de ontem sobrado...


Que era vossa? Isso sei eu,


Que de meu nada trazia


Excepto a barriga vazia,


Mas quem foi que vo-la deu?

*



Mª João Brito de Sousa


18.12.2024 - 13.00h

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