COMPILAÇÃO
Fotografia de Abel Simões
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Poema composto por versos extraídos dos poemas abaixo indicados de autoria de Maria João Brito de Sousa, compilados por Albertino Galvão
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A ILHA/DICOTOMIA/CANTO DE AMOR/ESCOLHAS/AOS OLHOS DE DEUS/ASPIRAÇÕES/O CULTIVO DAS ROSAS/ÁGUAS PROFUNDAS/EPOPEIAZINHA/PUZZLE/NEM SÓ DE MIM/A PRÓXIMA PARAGEM/HOJE/MOSTRA-ME AS TUAS MÃOS/A PARTILHA/A CEIA DO POETA III/NESSES DIAS, TÃO MAIS LUMINOSOS/MISTÉRIOS DE TODAS AS POÉTICAS/TER, NÃO TENDO/SE EU PUDESSE/DISSECAÇÃO/PORQUE UM VERSO TEM ALMA E TU NEM VÊS/PRETÉRITO MAIS DO QUE PERFEITO/TALVEZ SEJA APENAS POESIA/SEGUE-SE UM POEMA/O MAR DENTRO DE NÓS/DA INEXPLICABILIDADE DO POEMA/PARA ALÉM DA DOR/HUMANA CONDIÇÃO II/A BEM DA VERDADE
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Sou filha-de-ninguém, mas sou poeta!
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Há mãos que criam coisas que se instalam
Por dentro das pessoas, como ideias,
E outras que nos tocam, nos embalam,
Ou que acenam do mar, como as sereias
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Talvez não haja um mar dentro de mim
E a tempestade venha - se vier… -
De cada vez que um dia chega ao fim
Nesse universo que é cada mulher
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Por dentro de mim corre um longo rio
De seiva, ao por do sol de um campo arado,
E a ceifeira, que ceifa ao desafio,
Esquecida de o ceifar, passou-lhe ao lado
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Venho dos tais pretéritos perfeitos
Que nunca conheceste, nem provaste,
Á luz da transparência e do contraste
Com que farei valer os meus direitos
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Aquilo que aprendi não tem fronteiras,
Vem da nascente onde começa o Ser,
Não acaba depois de se morrer
E não conhece atrasos nem canseiras...
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Este conhecimento é tão profundo
E tão concretamente em mim nasceu
que aí ganhou raiz, depois cresceu
E tornou-se o meu EU, lá bem no fundo.
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Aprendi a sonhar e sei, portanto,
Mais do que hão-de alcançar os olhos meus
Que, sendo apenas olhos, são ateus
E, cegos de paixão, derramam pranto
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Ah! Não fora tão forte esta certeza
De ter ainda tanto por fazer,
Das coisas por sonhar, por aprender,
Talvez tivesse tempo pr`à tristeza...
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Assim transformo a prosa em poesia
E transmuto a palavra em verso e rima
Devolvendo aos meus sonhos de menina
A sedução profunda da alquimia.
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Sou filha-de-ninguém no dia a dia
Mas trago o sangue bom dos meus avós
E mesmo nada tendo, tenho voz!
(desculpem-me a vaidade, a ousadia...)
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Eu sou o espaço vivo dos meus dias
Nos tropeços do mundo aos trambolhões
E desprezo o conforto dos travões
Nesta estranha corrida de ousadias...
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Terei, enfim, traçado a minha imagem
E não haverá mundo que me dome
Pois serei, de quem fui, simples miragem
Diluindo-se na luz em que se some
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Porque nem só de mim te irei falar…
Nem só do que senti, do que pensei,
Te apontarei os rumos de luar
Das rimas dos poemas que farei
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Sou filha-de-ninguém, mas sou poeta!
Canto o passar das horas neste mundo
E enquanto cantar não vou ao fundo!
É esta a minha glória mais secreta...
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Pois sempre alcancei quanto desejava
E soube que jamais me afastaria
Daquelas – tantas... - coisas que encontrava
Nesse longínquo mundo que antevia.
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Se sou a mais pequena entre os pequenos
(ainda mais pequena que o comum...),
Se vivo neste absurdo desjejum
Das palavras que escrevo em mil cadernos
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Serei sempre uma ilha de paixões
Rodeada de mundo a toda a volta,
Deserta por decreto da revolta
Que me encheu de lagoas e vulcões...
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Se pudesse mudar-me, eu mudaria
Esta parte de mim, feita de lodo,
Para remar em frente, com denodo,
Na contra-foz da minha teimosia
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Se eu pudesse, depois, renasceria
(hei-de morrer no fim, de qualquer modo…)
Sublime, na alegria com que apodo
A mesmíssima luz que então veria…
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Atribuo o que tenho ao que não tenho…
Se tudo tem um preço, este é o meu!
Por mais que vos pareça injusto ou estranho,
Aceitei-o da mão que mo estendeu
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Às vezes, já esquecida de quem sou,
Quero voar também, mas logo abranda,
Esta minha ilusão, esta demanda,
De chegar onde alguém jamais chegou...
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Depois retorno ao mundo... que ironia,
Este ser tão vivida e pequenina,
A descobrir em tudo o que me anima
Uma nova, incessante melodia...
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A próxima paragem será minha,
Não quero partilhá-la com ninguém…
Devolvo à terra o que da terra vem
E voo em negras asas de andorinha
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Quando canto o Amor, exalto a Vida
Sobrevivendo à dor de cada dia
E é meu canto a simples despedida
Deste lado da Vida em que eu vivia
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Hoje é um dia mudo e não há tema,
Nem motivo, nem verbo ou convicção,
Uma só alegria, um só problema
Que possam merecer-me uma atenção.
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Hoje não será dia de poema
E, se os anjos falarem, vos dirão
Que eu, hoje, ostentarei o velho emblema
Da minha inenarrável solidão
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Porque talvez – quem sabe? – eu vá rimar
Sobre as mil e uma coisas que nem sei
E chegue até, um dia, a dissertar
Sobre ecos filosóficos que herdei…
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Mas, se pressinto as rimas que ressoam
E se acaso as alcanço onde me atrevo,
Prendo-as nas duas mãos que logo elevo
Em estandartes, como aves quando voam!
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Porque um verso tem mãos que tu nem vês,
Tem lábios que te beijam, sem beijar,
E será quem te pode apaziguar
Depois de incendiar-te em mil porquês!
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Há gotas de suor, nos meus sonetos,
Jorrando de outros poros, porque os meus
Não podem entender tantos dialectos
E portam-se, por vezes, como ateus
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Enquanto, por aqui, for poetando,
Disseco, isto que sou, em mil pedaços
E, assim, serei feliz pois, dissecando,
Terei sempre ocupados os meus braços
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Como se eles me nascessem quando quero,
Como se eu carregasse num botão
E se materializasse a inspiração,
A tal que só me vem quando a não espero…
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Segue-se este poema que não chora
Mas faz, do mesmo sal que tens nas veias,
Um hino à sensação que se demora
Por dentro do tecido das ideias
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Não escreverei até que as mãos me doam
Pois muito além da dor, ainda escrevo
E, às vezes, digo tudo o que não devo,
Que nem Deus, nem os homens me perdoam
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É, portanto, das letras que desenho
E que estendo pr`a vós, qual Prometeu,
Que retiro o Maná que agora obtenho
(quem não colhe da Terra, ordenha o Céu)
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Há dias em que a luz é tão brilhante,
Que as coisas tomam tons muito dif`rentes
E nada pode ser mais importante
Do que essas mutações quase aparentes
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Ao vislumbrar-me, assim, entre os eternos,
Senti-me, por segundos, ser mais um
E, louca de alegria, bebi rum
Por copos inventados nos infernos
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Versos da autoria de Maria João Brito de Sousa
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Compilação de Abgalvão
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