COMPILAÇÃO

 
Eu em 1975

Fotografia de Abel Simões

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Poema composto por versos extraídos dos poemas abaixo indicados de autoria de Maria João Brito de Sousa, compilados por Albertino Galvão

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A ILHA/DICOTOMIA/CANTO DE AMOR/ESCOLHAS/AOS OLHOS DE DEUS/ASPIRAÇÕES/O CULTIVO DAS ROSAS/ÁGUAS PROFUNDAS/EPOPEIAZINHA/PUZZLE/NEM SÓ DE MIM/A PRÓXIMA PARAGEM/HOJE/MOSTRA-ME AS TUAS MÃOS/A PARTILHA/A CEIA DO POETA III/NESSES DIAS, TÃO MAIS LUMINOSOS/MISTÉRIOS DE TODAS AS POÉTICAS/TER, NÃO TENDO/SE EU PUDESSE/DISSECAÇÃO/PORQUE UM VERSO TEM ALMA E TU NEM VÊS/PRETÉRITO MAIS DO QUE PERFEITO/TALVEZ SEJA APENAS POESIA/SEGUE-SE UM POEMA/O MAR DENTRO DE NÓS/DA INEXPLICABILIDADE DO POEMA/PARA ALÉM DA DOR/HUMANA CONDIÇÃO II/A BEM DA VERDADE

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Sou filha-de-ninguém, mas sou poeta!

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Há mãos que criam coisas que se instalam

Por dentro das pessoas, como ideias,

E outras que nos tocam, nos embalam,

Ou que acenam do mar, como as sereias

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Talvez não haja um mar dentro de mim

E a tempestade venha - se vier… -

De cada vez que um dia chega ao fim

Nesse universo que é cada mulher


Por dentro de mim corre um longo rio

De seiva, ao por do sol de um campo arado,

E a ceifeira, que ceifa ao desafio,

Esquecida de o ceifar, passou-lhe ao lado

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Venho dos tais pretéritos perfeitos

Que nunca conheceste, nem provaste,

Á luz da transparência e do contraste

Com que farei valer os meus direitos

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Aquilo que aprendi não tem fronteiras,

Vem da nascente onde começa o Ser,

Não acaba depois de se morrer

E não conhece atrasos nem canseiras...

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Este conhecimento é tão profundo

E tão concretamente em mim nasceu

que aí ganhou raiz, depois cresceu

E tornou-se o meu EU, lá bem no fundo.


Aprendi a sonhar e sei, portanto,

Mais do que hão-de alcançar os olhos meus

Que, sendo apenas olhos, são ateus

E, cegos de paixão, derramam pranto

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Ah! Não fora tão forte esta certeza

De ter ainda tanto por fazer,

Das coisas por sonhar, por aprender,

Talvez tivesse tempo pr`à tristeza...

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Assim transformo a prosa em poesia

E transmuto a palavra em verso e rima

Devolvendo aos meus sonhos de menina

A sedução profunda da alquimia.

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Sou filha-de-ninguém no dia a dia

Mas trago o sangue bom dos meus avós

E mesmo nada tendo, tenho voz!

(desculpem-me a vaidade, a ousadia...)

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Eu sou o espaço vivo dos meus dias

Nos tropeços do mundo aos trambolhões

E desprezo o conforto dos travões

Nesta estranha corrida de ousadias...

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Terei, enfim, traçado a minha imagem

E não haverá mundo que me dome

Pois serei, de quem fui, simples miragem

Diluindo-se na luz em que se some

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Porque nem só de mim te irei falar…

Nem só do que senti, do que pensei,

Te apontarei os rumos de luar

Das rimas dos poemas que farei

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Sou filha-de-ninguém, mas sou poeta!

Canto o passar das horas neste mundo

E enquanto cantar não vou ao fundo!

É esta a minha glória mais secreta...

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Pois sempre alcancei quanto desejava

E soube que jamais me afastaria

Daquelas – tantas... - coisas que encontrava

Nesse longínquo mundo que antevia.

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Se sou a mais pequena entre os pequenos

(ainda mais pequena que o comum...),

Se vivo neste absurdo desjejum

Das palavras que escrevo em mil cadernos

*


Serei sempre uma ilha de paixões

Rodeada de mundo a toda a volta,

Deserta por decreto da revolta

Que me encheu de lagoas e vulcões...

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Se pudesse mudar-me, eu mudaria

Esta parte de mim, feita de lodo,

Para remar em frente, com denodo,

Na contra-foz da minha teimosia

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Se eu pudesse, depois, renasceria

(hei-de morrer no fim, de qualquer modo…)

Sublime, na alegria com que apodo

A mesmíssima luz que então veria…

*

 

Atribuo o que tenho ao que não tenho…

Se tudo tem um preço, este é o meu!

Por mais que vos pareça injusto ou estranho,

Aceitei-o da mão que mo estendeu

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Às vezes, já esquecida de quem sou,

Quero voar também, mas logo abranda,

Esta minha ilusão, esta demanda,

De chegar onde alguém jamais chegou...

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Depois retorno ao mundo... que ironia,

Este ser tão vivida e pequenina,

A descobrir em tudo o que me anima

Uma nova, incessante melodia...

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A próxima paragem será minha,

Não quero partilhá-la com ninguém…

Devolvo à terra o que da terra vem

E voo em negras asas de andorinha

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Quando canto o Amor, exalto a Vida

Sobrevivendo à dor de cada dia

E é meu canto a simples despedida

Deste lado da Vida em que eu vivia

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Hoje é um dia mudo e não há tema,

Nem motivo, nem verbo ou convicção,

Uma só alegria, um só problema

Que possam merecer-me uma atenção.

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Hoje não será dia de poema

E, se os anjos falarem, vos dirão

Que eu, hoje, ostentarei o velho emblema

Da minha inenarrável solidão

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Porque talvez – quem sabe? – eu vá rimar

Sobre as mil e uma coisas que nem sei

E chegue até, um dia, a dissertar

Sobre ecos filosóficos que herdei…

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Mas, se pressinto as rimas que ressoam

E se acaso as alcanço onde me atrevo,

Prendo-as nas duas mãos que logo elevo

Em estandartes, como aves quando voam!

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Porque um verso tem mãos que tu nem vês,

Tem lábios que te beijam, sem beijar,

E será quem te pode apaziguar

Depois de incendiar-te em mil porquês!

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Há gotas de suor, nos meus sonetos,

Jorrando de outros poros, porque os meus

Não podem entender tantos dialectos

E portam-se, por vezes, como ateus

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Enquanto, por aqui, for poetando,

Disseco, isto que sou, em mil pedaços

E, assim, serei feliz pois, dissecando,

Terei sempre ocupados os meus braços

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Como se eles me nascessem quando quero,

Como se eu carregasse num botão

E se materializasse a inspiração,

A tal que só me vem quando a não espero…

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Segue-se este poema que não chora

Mas faz, do mesmo sal que tens nas veias,

Um hino à sensação que se demora

Por dentro do tecido das ideias

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Não escreverei até que as mãos me doam

Pois muito além da dor, ainda escrevo

E, às vezes, digo tudo o que não devo,

Que nem Deus, nem os homens me perdoam

*


É, portanto, das letras que desenho

E que estendo pr`a vós, qual Prometeu,

Que retiro o Maná que agora obtenho

(quem não colhe da Terra, ordenha o Céu)

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Há dias em que a luz é tão brilhante,

Que as coisas tomam tons muito dif`rentes

E nada pode ser mais importante

Do que essas mutações quase aparentes

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Ao vislumbrar-me, assim, entre os eternos,

Senti-me, por segundos, ser mais um

E, louca de alegria, bebi rum

Por copos inventados nos infernos

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Versos da autoria de Maria João Brito de Sousa

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Compilação de Abgalvão

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