CRUZANDO O RUBICÃO

soneto fantasma (1).jpg

Imagem Pinterest

*

CRUZANDO O RUBICÃO
*


Já terão todos migrado

Deste bairro hoje fantasma?

Serei eu um ectoplasma

Que expirou sem ter notado?

Está vazia, a casa ao lado...

No Sapal paira o miasma

De uma solidão que pasma

O mais bem acompanhado...

Que é do sapinho encantado

Que tanto me entusiasma?
*


Percorro as ruas vazias...

Nem o vento me acompanha

Nesta caminhada estranha

E as horas tornam-se frias,

Pesadas como manias

Que alguém, tendo, não detenha

Por ser tarefa tamanha

Que só as melancolias

A igualam, nalguns dias

Em que alguma em nós se embrenha...
*


Nem vivalma! E percorri

O Sapal todo inteirinho

Sem vislumbrar um sapinho

Dos tantos que havia aqui...

Nem notei mas, sim, morri

E este é um outro caminho,

O tal que se faz sozinho

Quando nos vamos daqui...

Não fui eu que decidi

E, para trás, deixo um ninho
*


Mas não tenho alternativa...

Não posso dizer que não

Estando em decomposição

O corpo no qual fui viva

E, hoje, sou alminha à d`riva...

E agora? Que direcção

Me aponta este coração

Que não pulsa, nem cativa?

Espero encontrar comitiva

Que me leve ao Rubicão!
*

 

Mª João Brito de Sousa

17.01.2026 - 14.20h
***

Comentários

  1. À Musa não lhe falta inspiração. O Sapal é que está muito calado, muito triste por ter sido abandonado.
    Noite tranquila, Marai João!
    Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada, Cheia.

      A Musa está furiosa por ser obrigada a emigrar e, quando se enfurece, encontra sempre maneira de desabafar e espetar umas farpinhas...

      Bem, amanhã é dia de ir às urnas, não se esqueça!

      Outro abraço

      Eliminar
    2. Nunca me esqueço. Já basta os anos em que não me deixaram votar. Em 1969, na tropa, tive de me recensear, depois fui para Angola, desconfio que tenham votado por mim.
      Um abraço.

      Eliminar
    3. Nesse tempo, os votos forjados eram uma coisa tão comum quanto beber um copo de água, Cheia.
      Todos o sabíamos mas não podíamos deixar transparecer o que sabíamos sob pena de sermos imediatamente detidos.

      Outro abraço

      Eliminar
  2. Poetando de excelência, pondo o dedo na ferida.
    Já quase toda a gente abalou.
    Até breve. Obrigado pela partilha.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Boa noite, Francisco.

      Eu ainda estou como o tolo no meio da ponte... Iniciei a viagem e parei no limbo. Tenho raízes tão profundas do lado de cá...

      Até breve!

      Saúde e PAZ

      Eliminar
  3. Teu poema
    me lembra
    um sapo que engoli
    e se o Sapal está deserto
    sorte a minha, pois percebi
    que meu voto está certo

    Obrigado pelo teu poema-aviso

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu sei, neto meu, eu sei. Também engoli esse mesmíssimo sapo...

      Este poema pode ter mais do que um sentido e o que mencionas é um deles.

      O teu voto é o voto correcto e é o meu também!

      Bjs da tua avó mainova

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares