RAZÕES PARA...

Cravo de Daniel Filipe Rodrigues (1).jpg


"Cravo" de Daniel Filipe Rodrigues


*


RAZÕES PARA UMA BOA AUSCULTAÇÃO


DA MISÉRIA SOCIAL ENDÉMICA
*



Com quantas lágrimas verte,


Com quanta dor te arrebanha,


Te aborda e depois se entranha,


Vem a miséria que, ao ver-te,


Te condena, te perverte,


Faz de ti farrapo humano,


Te lança no desengano,


Te desgraça, te desdenha,


Te transforma em coisa estranha


Pr`a melhor poder perder-te!


Vem, quando menos sonhavas,


Infiltrar-se, sorrateira,


Estudando a melhor maneira


De açambarcar quanto amavas,


De negar-te o que aspiravas,


De minar-te a resistência


Quando, com estranha insistência,


Te obriga a ser quem não queres,


Desmentindo o que disseres


Pra tomar-te a dianteira…


Muito poucos voltarão


A dar-te o valor que tens,


Que ela não rouba só bens,


Muda, inteira, a condição


E, além de roubar-te o pão,


Coloca-te uma etiqueta


Das que abundam na sarjeta


Dos humanos preconceitos


Onde alguns poucos eleitos


Encontram fama e razão…

Quanto mais dúbia, mais duro


Se torna o jugo que impôs


Sobre a voz da tua voz


Quando aperta, furo a furo,


O cinto com que o esconjuro


Te abraçou nesse momento


Em que, sem outro argumento,


Te afastou de quanto amaste


E logo, em claro contraste,


Te impôs seu próprio futuro

Pois assim que essa armadilha


Por elites preparada,


Tão fatal, tão bem estudada,


Que nem a própria partilha


Bloqueia os rumos que trilha,


Se estende tão triunfante,


Como se fora um gigante


De bocarra escancarada


Cravando, pela calada,


A dentuça acutilante,


E, munida das mil manhas


Que tem escondidas na manga,


Faz, do amigo, um seu capanga


Com duas ou três patranhas


De opacidades tão estranhas


Que, nas malhas enrededado,


Já nem sabes pra que lado


Te empurra essa dura canga:


Se prá fome ou se prá tanga


De quem, de homem, fez coitado.
*



Maria João Brito de Sousa


15.11.2013 – 14.47h
***


Reedição
*

Comentários

  1. Cinquenta anos depois, as desigualdades continuam, fazendo com que haja muita pobreza.
    Boa noite, Maria João.
    Um abraço

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    1. É verdade, Cheia.

      E como se o fosso da desigualdade nos não bastasse, agora começam a vislumbrar-se, ao longe, as nuvens de uma nova guerra mundial. Custa-me a acreditar que a nossa espécie seja tão estúpida - ou louca... - que não entenda que, se assim continuarmos, passaremos a ser apenas uma memória de ninguém num universo que apenas parcialmente conhecemos...Ou, mais abreviadamente, estamos a caminhar para a autoextinção.
      Já muitas espécies se extinguiram sobre este planeta, mas foram espécies que nem sequer tiveram a consciência disso. Seria suposto sermos uma espécie racional... Enfim, Cheia, enfim, já começo a duvidar da nossa racionalidade...

      Boa noite e um abraço

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  2. É essa Musa
    que tem de voltar
    este poema
    é genial

    Abraço-te, minha "avó"

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    1. Olha que esta Musa tinha menos doze anos do que tem agora e ainda não tinha tido nenhum enfarte embora já tivesse acumulado um montão de mazelas e infecções, neto meu.

      Isto era um conjunto de décimas que agora preferi não separar porque penso que funcionam muito bem ligadas umas às outras.

      Abraço-te, neto meu

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  3. E com o Diabo à solta na América é que vai ser MJ
    Belo dia com saude, beijinhos

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    1. Ainda me pergunto como é possível que o louco que referes tenha sido eleito presidente, .

      Bem, o mundo está cheio de loucos homicidas nas posições de poder, lá isso é verdade... Deve ser mais uma moda, neste caso uma moda muito "retro"- porque esse fulano tem ideias que lembram a idade média - que nos vai sair muito, muito cara.

      Belo dia também para ti,

      Beijinhos

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  4. "...De quem, de homem, fez coitado."
    Pior que "coitado", só mesmo "coitadinho"!
    Que os ideais não percamos, mesmo que pobres, mas não coitados!
    Votos de Saúde e de Paz!

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    1. Viva, Francisco!

      Vá por mim, meu amigo: se a pobreza já é uma coisa muito má que todos concordamos que deve ser erradicada, a miséria, essa, transforma-nos mesmo em coitados.
      Votos de Saúde e Paz!

      Abraço

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  5. Um reedição necessária, por todos os motivos que tristemente nos assolam...
    Excelente poema.
    Oxalá a saúde esteja a melhorar, minha amiga.
    Um beijo

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    1. Obrigada, Ana!

      A saúde não vai grande coisa, mas penso que quando vencer esta impertinente infecção me sentirei bem melhor. Olhe, não querendo imitar Pessoa, a verdade é que a minha saúde anda ensombrada, como Portugal e a Europa... e como o resto do mundo, aliás.

      Um beijo

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