PESCARIA(S) - Reedição

A TECEDEIRA DE BARCAS, 1999 (1).jpg


"A Tecedeira de Barcas", 1999


Tela de minha autoria


*


PESCARIA(S)
*


I
*
Lanço a fateixa. A jangada


Estremece e fica parada


No meu mar de beira rio


E à rede, já remendada,


Lanço-a à água... é tudo ou nada,


Que trago o bote vazio:


Venha atum, raia ou safio,


Quando a malha for puxada


E outro mar de água salgada


Dela escorrer, fio a fio!
*
II
*
Mas se entre as malhas da rede


Não há peixes de verdade


E eu cometo a veleidade


De usá-los como quem cede


À distância que se mede


Entre mentira e verdade


Quando o poema me invade,


Que sede dessoutra sede


Traz e leva, a quem nem pede,


Frutos de um mar que é de jade?
*


III
*
Cordas que apenas invento


Tecem-me as malhas da vida


E foi-me a Barca erigida


Num mar que eu mesma sustento...


Meus remos? Sopros de vento


À espera do que eu decida:


Se quero a fateixa erguida


Sobre um mar tão turbulento,


Ou se aguardo mais um tempo


E lanço a rede em seguida
*
IV
*
Pra que banquete, afinal,


Nos convida este poema


Cuja autora faz que rema


No mar do seu próprio sal?


Em que jangada irreal


Singra as ondas do fonema?


Quem lhe diz que vale a pena


E jura não ser por mal


Que estende no areal


Esta ilusão pura e plena?
*
V
*
Parábola, alegoria,


Mas não mera brincadeira,


Pois não é coisa ligeira


Tecer-se uma fantasia


Que, mais dia, menos dia,


Se há-de tornar verdadeira


Já que sempre achou maneira


De dar vida à pescaria:


Mais pesca quem mais porfia


E esta porfia-se inteira!
*



Maria João Brito de Sousa


02.04.2018 – 19.52h
***


 

Comentários

  1. Que grande pescaria.
    Bom domingo, Maria João.
    Um abraço.

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    Respostas
    1. Boa noite, Cheia!

      São cinco décimas de pescarias escritas num dia em que, penso eu, me senti mais pescadora de versos do que operária de sonetos.

      Bom Domingo e um abraço também para si, amigo

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