SUPER FLUMINA BABYLONIS - Excerto do poema de Luís de Camões

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*


SUPER FLUMINA BABYLONIS
*


Sôbolos rios que vão


por Babilónia, m'achei,


onde sentado chorei


as lembranças de Sião


e quanto nela passei.


Ali o rio corrente


de meus olhos foi manado,


e tudo bem comparado,


Babilónia ao mal presente,


Sião ao tempo passado.


Ali, lembranças contentes


n'alma se representaram,


e minhas cousas ausentes


se fizeram tão presentes


como se nunca passaram.


Ali, despois de acordado,


co rosto banhado em água,


deste sonho imaginado,


vi que todo o bem passado


não é gosto, mas é mágoa.


E vi que todos os danos


se causavam das mudanças


e as mudanças dos anos;


onde vi quantos enganos


faz o tempo às esperanças.


Ali vi o maior bem


quão pouco espaço que dura,


o mal quão depressa vem,


e quão triste estado tem


quem se fia da ventura.


Vi aquilo que mais val,


que então se entende milhor


quanto mais perdido for;


vi o bem suceder mal,


e o mal, muito pior.


E vi com muito trabalho


comprar arrependimento;


vi nenhum contentamento,


e vejo-me a mim, que espalho


tristes palavras ao vento.


Bem são rios estas águas,


com que banho este papel;


bem parece ser cruel


variedade de mágoas


e confusão de Babel.


Como homem que, por exemplo


dos transes em que se achou,


despois que a guerra deixou,


pelas paredes do templo


suas armas pendurou:


Assi, despois que assentei


que tudo o tempo gastava,


da tristeza que tomei nos


salgueiros pendurei os órgãos


com que cantava.


Aquele instrumento ledo


deixei da vida passada,


dizendo:-Música amada,


deixo-vos neste arvoredo


à memória consagrada.


Frauta minha que, tangendo,


os montes fazíeis vir


para onde estáveis, correndo;


e as águas, que iam decendo,


tornavam logo a subir:


jamais vos não ouvirão


os tigres, que se amansavam,


e as ovelhas, que pastavam,


das ervas se fartarão


que por vos ouvir deixavam.


Já não fareis docemente


em rosas tornar abrolhos


na ribeira florecente;


nem poreis freio à corrente,


e mais, se for dos meus olhos.


Não movereis a espessura,


nem podereis já trazer


atrás vós a fonte pura,


pois não pudestes mover


desconcertos da ventura


Ficareis oferecida


à Fama, que sempre vela,


frauta de mim tão querida;


porque, mudando-se a vida,


se mudam os gostos dela.


Acha a tenta mocidade


prazeres acomodados,


e logo a maior idade


já sente por pouquidade


aqueles gostos passados.


Um gosto que hoje se alcança,


amanhã já o não vejo;


assi nos traz a mudança


de esperança em esperança,


e de desejo em desejo.


Mas em vida tão escassa


que esperança será forte?


Fraqueza da humana sorte,


que, quanto da vida passa


está receitando a morte!


Mas deixar nesta espessura


o canto da mocidade,


não cuide a gente futura


que será obra da idade


o que é força da ventura.


Que idade, tempo, o espanto


de ver quão ligeiro passe,


nunca em mim puderam tanto


que, posto que deixe o canto,


a causa dele deixasse.


Mas, em tristezas e enojas


em gosto e contentamento,


por sol, por neve, por vento,


terné presente a los ojos


por quien muero tan contento.


Orgãos e frauta deixava,



despojo meu tão querido,


no salgueiro que ali estava


que para troféu ficava


de quem me tinha vencido.


Mas lembranças da afeição


que ali cativo me tinha,


me perguntaram então:


que era da música minha


que eu cantava em Sião?


Que foi daquele cantar


das gentes tão celebrado?


Porque o deixava de usar?


Pois sempre ajuda a passar


qualquer trabalho passado.


Canta o caminhante ledo


no caminho trabalhoso.


por antr'o espesso arvoredo


e, de noite, o temeroso


cantando, refreia o medo.


Canta o preso documente


os duros grilhões tocando;


canta o segador contente;


e o trabalhador, cantando,


o trabalho menos sente.


Eu, qu'estas cousas senti


n'alma, de mágoas tão cheia


Como dirá, respondi,


quem tão alheio está de si


doce canto em terra alheia?


Como poderá cantar


quem em choro banh'o peito?


Porque se quem trabalhar


canta por menos cansar,


eu só descansos enjeito.


Que não parece razão


nem seria cousa idónea,


por abrandar a paixão,


que cantasse em Babilónia


as cantigas de Sião.


Que, quando a muita graveza


de saudade quebrante


esta vital fortaleza,


antes moura de tristeza


que, por abrandá-la, cante.


Que se o fino pensamento


só na tristeza consiste,


não tenho medo ao tormento


que morrer de puro triste,


que maior contentamento?


Nem na frauta cantarei


O que passo, e passei já,


nem menos o escreverei,


porque a pena cansará,


e eu não descansarei.


Que, se vida tão pequena


se acrecenta em terra estranha,


e se amor assi o ordena,


razão é que canse a pena


de escrever pena tamanha.


Porém se, para assentar


o que sente o coração,


a pena já me cansar


não canse para voar


a memória em Sião.


Terra bem-aventurada,


se, por algum movimento,


d'alma me fores mudada,


minha pena seja dada


a perpétuo esquecimento.


A pena deste desterro,


que eu mais desejo esculpida


em pedra, ou em duro ferro,


essa nunca sela ouvida,


em castigo de meu erro.


E se eu cantar quiser,


em Babilónia sujeito,


Hierusalém, sem te ver,


a voz, quando a mover,


se me congele no peito.


A minha língua se apegue


às fauces, pois te perdi,


se, enquanto viver assi,


houver tempo em que te negue


ou que me esqueça de ti.


Mas ó tu, terra de Glória,


se eu nunca vi tua essência,


como me lembras na ausência?


Não me lembras na memória,


senão na reminiscência.


Que a alma é tábua rasa,


que, com a escrita doutrina


celeste, tanto imagina,


que voa da própria casa


e sobe à pátria divina.


Não é, logo, a saudade


das terras onde naceu


a carne, mas é do Céu,


daquela santa cidade,


donde esta alma descendeu.


E aquela humana figura,


que cá me pôde alterar,


não é quem se há-de buscar:


é raio de fermosura,


que só se deve de amar.


Que os olhos e a luz que ateia


o fogo que cá sujeita,


não do sol, mas da candeia,


é sombra daquela Ideia


que em Deus está mais perfeita.


E os que cá me cativaram


são poderosos afeitos


que os corações têm sujeitos;


sofistas que me ensinaram


maus caminhos por direitos.


Destes, o mando tirano


me obriga, com desatino,


a cantar ao som do dano


cantares d'amor profano


por versos d'amor divino.


Mas eu, lustrado co santo


Raio, na terra de dor,


de confusão e de espanto,


como hei-de cantar o canto


que só se deve ao Senhor?


Tanto pode o beneficio


da Graça, que dá saúde,


que ordena que a vida mude;


e o que tomei por vício


me faz grau para a virtude;


e faz que este natural


amor, que tanto se preza,


suba da sombra ao Real,


da particular beleza


para a Beleza geral (...)


***


 


Luís de Camões


***
.


SUB AQUA IN BABYLONIA
*



Sôbolos rios que evocais,


Irei eu, meu coração,


E também irá Sião


Já que de Sião falais


E de mim não cuidais, não...


Sigo o vosso pensamento


Pra mitigar vossas mágoas


Mas não me afogo nas águas


Que antes sufoco em tormento


Como lava entre ígneas fráguas...


Não me ouvis e não me vedes


Mas sôbolos rios levada


Serei a moura encantada


Que vem matar vossas sedes


Recolher as vossas redes


E alumiar-vos a estrada....


Trago no meu corpo a lira


Pra que a tenhais sempre à mão


Já que me cabe a função


De evitar que assim vos fira


O silêncio de Sião...


Se acaso vos debruçásseis


Sobre o meu corpo invisível,


Continuaria intangível


Ainda que me tocásseis,


Pois de ideias sou tecida:


Dos sonhos que haveis sonhado


Me ergui, bocado a bocado:


Estou viva não tendo vida...


Mas de mim não cuideis mais,


Não sou Pátria nem Nação


E se cumpro esta missão


Sonho tudo o que sonhais...


Vossa amada frauta trago


No meu peito inexistente:


Toda sou de água corrente,


Toda eu sereno afago


Cujo afagar se não sente...


Mas falai, contai-me ainda


Dessa terra em que viveis


Tão dif`rente em suas leis,


Tão miserável quão linda...


Oh, julgo ter-vos chocado!


Como pudestes ouvir-me


Se a corrente avança firme?


Estou bem perto, a vosso lado,


Mas terei de despedir-me


Se em vez simples ideia


Passar a ter corpo e voz...


Ah, ser ouvida por vós


Quase, quase me incendeia,


Mas seria um erro atroz


Que me imporia a partida


E a desistência total


Deste meu ser virtual


Por missão jamais cumprida...


Não me olheis, por Deus, parai


De procurar, junto aos rios,


Pelo meu corpo de fios


Que pelas águas se vai


Em ondas e rodopios


Que não podereis tocar...


Deixai que fique convosco:


Imaginai-me qual tosco


Velho tronco a flutuar...


E assim num galho me enrosco,


Pra que não consigais ver


Nem sinal disto que sou


Já que a minha voz negou


Que sou, afinal, mulher...
*



De água estando disfarçada


Amei-vos, sofri por vós,


Vós que desatais os nós


Da minha capa encantada


E agora, ficámos sós,


De olhos nos olhos que choram


Mil mágoas sôbolos rios


Que correm cheios/vazios:


Ai dos meus que se enamoram,


Ai dos vossos porque eu vi-os...
***



Mª João Brito de Sousa


21.12.2024 - 15.50h
***


O Poema Super Flumina Babylonis


foi recolhido no Blog


Sociedade Perfeita


 


Nota - Por falta de espaço, foi-me impossível


publicar todo o longo poema 


que poderão ler na íntegra no blog 


de onde este extracto foi recolhido


 


 


 


 

Comentários

  1. E as palavras
    fluem
    como se fosse
    cantata
    e nem a música
    lhe falta

    Beijo natalício
    (bela a imagem escolhida)

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    1. Obrigada, neto meu!

      É mesmo muito longo este famosíssimo poema de Camões, tive de publicar apenas um excerto para que o meu Sub Aqua in Babylonia pudesse caber...
      Beijinho natalício

      Eliminar
  2. Que Musa, que torrente, que enche a alma da gente!
    Noite tranquila, Maria João.
    Um abraço.

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    Respostas
    1. Muito obrigada, Cheia, fico contente por saber que gostou. :)

      Que tenha também uma noite serena e repousante

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