CANTANDO COM CAMÕES - XIII
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Na sequência da leitura das minhas Voltas
*
CANTIGA
A Este Moto Seu:
*
De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?
*
VOLTAS
*
Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse
Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
*
Luís de Camões
***
Vós dizeis-vos persuadido
Por razões que vossas são
De haver por vós compaixão
Pois convosco haveis nascido
Estando vós a vós unido
Por cada azar, cada p`rigo,
Cada dor, cada castigo
Cada mal que haveis sofrido...
E se de vós vos despísseis
- e estas são obras difíceis! -
De nada vos serviria,
Pois tal mal vos deixaria,
Se deixásseis de ser vós,
Para seguir, logo após,
Vós, mas vós de alma vazia...
Ah, já não duvido, não,
Tendes, sim, toda a razão,
Sois, de vós, grande ameaça
Se qu`reis fugir da desgraça
Sem que de vós possais ir-vos...
Calai-vos, senhor, que ouvir-vos
É louvar dor que não passa,
Aceitar o mal que grassa
E bendizê-lo no fim...
Mas se de vós não fugis
Porque não podeis, assim,
Eu ponho os pontos nos íi:
Qu`reis fugir? Fugi de mim!
*
Mª João Brito de Sousa
27.12. 2024 - 10.00h
***
O Mote, a Cantiga e as Voltas de Camões
foram retirados do Blog
***

Gostei muito. Muitos parabéns!
ResponderEliminarNoite tranquila, Marai João!
Um abraço
Obrigada, Cheia! Fico contente por saber que gostou.
EliminarQue tenha uma noite repousante.
Outro abraço!
Dialogar com Luis de Camões ,grande poeta da literatura portuguesa é mesmo um privilégio e uma ousadia que só tu consegues assim maravilhosamente 'colocar os pontos nos iis' . Muito bom,MFlor
ResponderEliminar* ( respondi seu comentário lá na minha escrita _ quando puder dê lá outro pulo.)
Beijo , amiga , fica bem,
Obrigada, Lis
EliminarTalvez eu seja mais louca do que ousada, rsrsrsrs A verdade é que me fascina poder - ou tentar... - cantar com ele e para ele. Às vezes sei que sou mazinha, que o rejeito, que o empurro, que lhe fujo... mas estou só a interpretar uma personagem feminina que eu imagino a interagir com ele, não é bem como se estivesse eu mesma a conversar com um Camões de carne e osso.
Vou agora ao teu cantinho para ler a tua resposta. Obrigada e beijinhos
Com estes frios
ResponderEliminarcuidado com a voz
Belo sábado em harmonia e bom dia
bom fim de Semana MJ, beijinhos
Ora, , eu já estou completamente sem voz há mais de três semanas, a mulher que está a dar um ralhete a Camões é que parece estar óptima das cordas vocais, rsrsrsrs
EliminarE, por mais que eu me sinta de pé atrás em relação à IA, sempre te digo que fiquei encantada com a maravilha que ela fez com o padrão do tecido do vestido da dama. Em segundos, depois eu lhe ter dado o poema a ler e apenas tendo avisado que este diálogo se passa no Portugal do século XVI, ela faz-me isto e eu fico de boca aberta...
Beijinhos
Sem querer com Camões dialogar
ResponderEliminarNem de vós, ó Sonetista
Roubar o jeito, não pretendo porém
Tirar as vestes, desnudar meu corpo,
Deste agridoce tormento.
Despojar meu sentir, livrar mi'nhalma
Do segredo que trago guardado em mim
Há tanto, mas tanto tempo...
Beijos e um forte abraço, Mª João.
Olá, Janita!
EliminarTive de ir reler uns versitos, porque não sabia se estava no "ralhete" da dama a Camões ou na Consulta médica que acabo de publicar, rsrsrs... Como ando a escrever muito, já meto os pés pelas mãos. E a minha casa, coitadinha, continua toda virada do avesso.. enfim!
Mas pode dialogar com Camões à sua vontade: ele bem merece a atenção de todos nós quanto mais não seja pela sua insuplantável obra literária e também pelo muito que contribuiu para a evolução da língua portuguesa.
Para mim, tem sido uma bênção encontrar todos os dias um novo poema de Camões no blog Sociedade Perfeita, do amigo José Silva Costa que tem sido incansável nas suas publicações.
Foi o "segredo" de que fala que me levou a pensar que estaria na consulta de medicina improvisada. E cantada...
Obrigada e um grande, grande abraço
Muito bom. Uma das coisas que eu admiro na Maria João, é a sua capacidade de escrever no estilo camoneano, como se também vivesse no séc. XVI, tal e qual. Este poema de Luis de Camões e a resposta da Maria João fazem-me lembrar o famoso poema de Sá de Miranda (contemporâneo de Camões, como sabe) "Comigo me desavim".
ResponderEliminarBoa noite, Fernando.
EliminarNa nossa juventude, tivemos de ler muitos poemas de Camões e até os deliciosos autos de Gil Vicente que o precedeu no tempo. Sei que nem todas as minhas colegas de liceu morriam de amores por um e outro, mas eu deliciava-me com as leituras de ambos... Talvez por isso me seja tão fácil utilizar a linguagem da época. E o mais curioso é que tenho a sensação de estar mesmo no século XVI enquanto vou criando as falas das amadas e desamadas de Camões. Estou a descobrir em mim uma costelazinha pequenininha de dramaturga ou actriz que não conhecia quando era mais nova. Não há dúvida de que é bem verdadeiro que "aprendemos até morrer".
Sá de Miranda foi o primeiro a trazer o soneto de Itália para Portugal... creio que anda um pouco injustamente esquecido e eu gosto imenso do poema de que fala:
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda, in 'Antologia Poética'
Um abraço