AZAR

- oEIRAS, eVENTO NAS PALMEIRAS, POESIA, 2021 (5).jpg


Eu, fotografada por Rogério V. Pereira


*


AZAR
*



Conheci uma velhota


C`uma estória singular


Que quis jogar à batota


E acabou por se tramar
*


 


Depois comprou uma frota


De navios, foi navegar,


Mas partiu sem traçar rota


E acabou por naufragar
*



Pôs um vestido à "cocota"


Para poder desfilar,


Mas o tecido amarrota


E  não o soube passar
*


 


Estava em alegre risota,


Mas veio-lhe a falta de ar,


Que quando o crupe garrota


É mesmo pra sufocar


*



Fez, com neve, uma casota


Numa calota polar,


Veio um urso patriota


E ela cedeu-lhe o seu lar...
*



Disse que era poliglota


Sem saber pronunciar


Uma estrangeira lorota


Que a alguém pudesse enganar
*



Construiu uma palhota


Pra na palhota morar,


Mas tendo de pagar quota,


Não achou com que a pagar
*



Tentou ganhar uma nota


A servir num lupanar,


Mas por ser muito entradota


Ninguém a quis pra dançar
*



Foi até Aljubarrota


Pra com Brites conversar,


Mas Brites depressa enxota


Quem a pá não sabe usar
*



Foi vender peixe prá lota


Sem saber regatear,


E comprou uma marmota


Pelo preço de um jaguar
*



Vestiu camisola rota,


Quis concorrer ao Dakar,


Mas mal saltou para a mota


Ouviu o motor pifar...
*



Levou arsénico à boca


Para se suicidar


Mas tosse, engasga-se, arrota


E desata a vomitar
*



Um rapaz todo janota


Ofr`eceu-se pr`ajudar,


Mas se o fez foi por chacota


E depressa a pôs a andar
*



Em maré de bancarrota


Tentou na banca jogar


Depois ficou em pelota


Pra poder um pão comprar
*



Prá feira levou compota


Tentando uns tostões ganhar,


Mas chamaram-lhe agiota


E ninguém a quis provar
*



Colheu madura bolota


Prá dura fome matar


Mas roubou-lha uma gaivota


Que a andava a sobrevoar
*



Quis ser beata devota


Mas ao espanar o altar


Um anjinho em terracota


Acabou por se quebrar
*



Às tantas fez-se idiota,


Pediu esmola até fartar,


Não viu moeda nem nota


E ficou sem almoçar
*



Foi esta a sua derrota,


Nunca mais quis arriscar


E, a seguir, bateu a bota:


A isto se chama AZAR!
*



Mª João Brito de Sousa


12.12.2024 - 19.00h
***

Comentários

  1. Azar?! Sorte de quem a lê. Votos de saúde. Que a Musa continue inspirada.

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    1. Muito obrigada, Francisco :)
      Agora que a Musa se viu livre daquele medicamento que a amordaçava, não quer senão escrever. Eu é que não tenho tempo para escrever tanto quanto quereria, pois mesmo que fique em casa tenho sempre mil e uma coisas que ou não consigo fazer ou faço tão "ao ralenti" que nunca esta sucursal de lavanderia/biblioteca/hospital se encontra minimamente apresentável.

      Saúde, Paz e um abraço

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  2. Mas com muita sorte em sorriso dado MJ
    Belo fim de Semana, beijinhos

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  3. Olá querida Mª João!
    E que beleza este teu Azar que é a nossa sorte para com um sorriso logo o dia começar bem e divertido com esta personagem poética que muitas voltas deu até se finar.
    Não se pode queixar de monotonia, esta velhota Aljubarrota em potência
    Que a Musa te continue a acompanhar querida amiga Mª João, é uma delícia ler a tua poesia.
    Um enorme Xi-

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    1. Bom dia, linda Cotovia!

      Estou no meu quinto dia de quase total privação de sono, mas ainda não perdi o sentido de humor e, quando esmoreço um pouco, a Musa dá-me um empurrãozinho... como este, por exemplo, que me põe a cantar lengalengas mesmo estando quase, quase afónica.

      A pobre da velhota azarada é que não teve a sorte de ter uma Musa assim, tipo Super Homem, que só sucumbe à Kryptonita. A minha sucumbe à Gabapentina, mas essa substância já foi erradicada de cá de casa.

      Obrigada e um enorme xi

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  4. Não tem idade, nem mau aspecto quem assim sabe poetar!
    Que bela lengalenga, Maria João.
    Se não lhe quisesse tanto bem, ficaria cheia de inveja!!

    Beijinhos.

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    1. Olá, Janita!

      É que a minha pobre Musa andou anestesiada durante uns largos meses, por causa de um medicamento para as dores que nem sequer me tirava as dores vasculares - isquemia - que andam num crescendo atroz. Fiz o desmame, mas ainda tive de esperar mais uma ou duas semanas
      até a Musa se soltar completamente. Agora não pára nem me deixa parar, deve estar a tentar recuperar o tempo perdido...E a propósito de inveja, tenho um amigo que de vez em quando me diz excatamente isso mas que eu sei muito bem que não tem inveja nenhuma, nenhuma.

      Beijinhos

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  5. Excelente! Um azar que muito a fez penar.
    Bom fim-de-semana, Maria João.
    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia!
      Sou eu a pessoa que está na fotografia, mas esta "velhota" é uma personagem como outra qualquer... Na verdade, até posso ter tido episódios/azares mais difíceis e dolorosos do que os dela
      que foram criados propositadamente para formar a lengalenga, mas isto não descreve o meu percurso de vida.

      Bom descanso e outro abraço

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