SAUDADE III - Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa

Eu e avô Sousa.jpeg


Eu, ao colo do meu avô poeta


*


SAUDADE III
*


Custódio Montes e Mª João Brito de Sousa
*



Sou um homem já velhinho

Resta-me só a saudade


Corro o tempo à procura

De sonhos em torvelinho


Que tinha naquela idade


Com beijos em noite escura

Noite amena ao luar

No meio do milharal


Aos pulos o coração


Noite dentro sempre a amar


Mesmo junto ao quintal


Com sonhos em profusão


Clara a lua a iluminar


Todo o sito ao redor


Lá ao longe aqui ao perto


Longa serra de encantar


Onde andava o meu amor


Com lenço rubro coberto
*



No caminho da saudade


Volta-se atrás na idade
*


 


Custódio Montes


18.21.2024
***


 


Estou também velha e doente


E a cada dia que passa


Mais pareço envelhecer


Do corpo e também da mente


Que agora perdeu a graça


E o talento pra escrever...


Só posso andar se apoiada


Num andarilho de rodas


E, mesmo assim, cambaleio


Que, às vezes, de tão cansada


Não quero saber de modas


E, como os bebés, tenteio...


Então sim, volto pra trás,


Tão pra trás que dou comigo


A rir da triste figura


Que fiz por estar incapaz:


Pouco já fazer consigo


E este meu mal não tem cura
*



Meu amigo, esse caminho,


Ninguém, nunca, o fez sozinho.
*



Mª João Brito de Sousa


19.11.2024
***


 


 


 

Comentários

  1. Excelente. Só falta mesmo ouvir-vos, os dois, a dizerem estes poemas ao desafio! Mas consegue-se imaginar como seria interessante! Saúde e Paz!

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    1. Boa noite, Francisco.

      Embora eu e este meu amigo tenhamos já escrito juntos umas largas dezenas de coroas de sonetos, ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente. Ele é um trasmontano rijo como o aço bem temperado, mas eu, embora tenha sobrevivido a muitas situações tremendamente difíceis, começo a achar-me muito fragilizada por tanta maleita...

      Bem, nunca se sabe. Pode ser que um dia ainda venhamos a ter essa feliz oportunidade.

      Obrigada e muita Saúde e Paz para si também!

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  2. Excelente, como sempre.
    Boas melhoras, Maria João.
    Um abraço.

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    1. Obrigada pela parte que me cabe, bem como pelo voto de melhoras, Cheia.
      Amanhã terei de ir ao centro de saúde fazer a avaliação do INR - índice de coagulação do sangue - e tentarei ser vista por um médico das consultas de doença aguda.

      Hoje ainda estou muito cheia de tosse e, confesso, com algum receio de outra crise de crupe.
      Um abraço!

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  3. Bom dia, Maria João
    "A rir da triste figura
    Que fiz por estar incapaz:"
    Triste figura faz,
    Quem se dá por vencido.
    E se deixa ficar para trás,
    Como se nada houvesse
    Já para ser vivido.

    Boa continuação,
    Zé Onofre

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    1. Mais uma vez, boa noite, Zé Onofre.

      É um hábito algo estranho que eu tenho, mas a verdade é que, sendo incapaz de me rir das aflições alheias, costumo dar comigo a rir-me das minhas próprias incapacidades e pequenas tragédias... E é não é que parece que alivia um pouco o peso da aflição? Verdade!
      Quanto à continuação desta publicação é que não posso garantir nada porque, como de costume, entrei no Facebook para publicar o soneto de hoje e agradecer os comentários de ontem e, perdi-me completamente... Não sei o que me acontece, mas mal saio do meu mural fico com a sensação de estar a voar num espaço ausente de gravidade e coordenadas...
      Se o poeta Custódio Montes ler o meu comentário/pedido lançado não numa garrafa e ao mar, mas quase, penso que este "Saudade III" virá a ter continuação, sim.

      Outro abraço


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