DIALOGANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO - Glosas

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*


 


GLOSA


a este moto alheio:


"Minha alma, lembrai-vos dela"
*



Pois o ver-vos tenho em mais


que mil vidas que me deis,


assi como a que me dais,


meu bem, já que mo negais,


meus olhos, não mos negueis.


E se a tal estado vim,


guiado de minha estrela,


quando houverdes dó de mim,


minha vida, dai-lhe a fim,


minha alma, lembrai-vos dela.
*


Luís de Camões
***



Senhor, muito aqui pedis


A quem vem gasta e curvada


Como, de um choupo, a raiz,


Que mal sustenta a cerviz


Inda que a tanto obrigada...


Vou fazer, contudo, um esforço


Para erguer-me ao reerguê-la


Alongando o velho dorso...


Mas se isto der em remorso,


"Minha alma, lembrai-vos dela"!
*



Mª João Brito de Sousa


22.11.2024 - 12.00h
***


O mote e a glosa de Camões foram retirados do blog Sociedade Perfeita


 

Comentários

  1. Camões ficaria impressionado com esta sua Glosa.
    Boa tarde, Maria João!
    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia, mas creio que ele ficaria mais compadecido do que impressionado, ehehehe...
      Camões era um esteta incapaz de ficar indiferente à beleza de uma mulher jovem. Eu lembro-me de o ter glosado muitas vezes quando andava no liceu, mas todas essas glosas se perderam. ..

      Pelos meus quinze anos, isso sim, acredito que, se pudesse, Camões teria ressuscitado

      Bom Sábado e um abraço!

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  2. Que a Alma se salve que, consigo, a Poesia está sempre salva! Não desmerece nada Camões, bem pelo contrário, enaltece. Saúde e Paz!

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    1. Muito obrigada pela generosidade das suas palavras, Francisco, mas todos estes meus pequenos diálogos com Camões nasceram de um impulso, conforme os ia encontrando do blog do nosso amigo Cheia.
      Outros blogs de grande tiragem publicaram, aqui e ali, um ou outro soneto comemorativo do quingentésimo aniversário de Camões, mas foi no Sociedade Perfeita que me fui inspirando.

      Eu tento não envergonhar a lírica camoniana, mas não posso deixar de voltar elogiar o enorme esforço do Cheia que não deixa passar um único dia sem celebrar o maior dos nossos vates. E, já agora, um dos maiores poetas do mundo passado e presente.

      Saúde, Paz e um fraterno abraço

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  3. Camões te aplaudiria... estou certo
    (e não digo isto, por ser teu neto)

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    1. É possível, neto meu, mas acredita que ficaria muitíssimo chocado se pudesse ver-me tal qual estou agora... Ele sempre foi um esteta e no tempo dele raramente se passava dos cinquenta ou sessenta anos...
      Ando preocupada com a Elvira. O meu telefone morreu e tive de procurar um outro ainda mais velho que tinha posto de parte por não ter carregador, por isso fiquei sem o contacto dela.
      Bem, na próxima terça falamos nisso, está bem?

      Bjs da tua mais recente avozinha

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  4. O esforço valeu a pena, como todos os esforços que a Maria João leva a cabo, no sentido de contrariar o corpo que lhe pede descanso.
    Não restam dúvidas; a M João nasceu Poeta! Esse dom, essa sabedoria poética, só pode ter sido concebida por mão Divina.

    Um beijinho ecantado e deslumbrado.

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    1. Olá, Janita!

      Muito obrigada por se ter deslumbrado.
      Não é nada do outro mundo, nós somos de um país que sempre foi muito rico em poetas... Mas a verdade é que se falava muito lá por casa das quadras perfeitas - versos em redondilha maior - que eu comecei a cantarolar pela casa e que o meu avô registava e datava, quando ainda não tinha ainda três anos de idade. Por isso digo que nasci poeta e que embora a Ciência - nem toda... - esteja relutante no que toca à transmissão genética de talentos e aptidões, acredito que todos nós nascemos com competências inatas que podem, ou não, vir a desenvolver-se em várias áreas, consoante a situação económica da família em que nascemos, claro. Os milhares e milhares de crianças que nascem em famílias que diariamente penam e labutam apenas para não sucumbirem à fome ou que vivem aterrorizados pela constante sinfonia de mísseis e morteiros nunca terão a oportunidade de vir a desenvolver os seus talentos. Eu tive a sorte de nascer e crescer entre alguns dos nossos maiores da literatura que se rebelavam contra o cinzentismo cultural que o estado novo impunha ao nosso povo. Entretanto, a minha vida deu voltas que nem ao demo lembrariam, mas nunca deixei de ser a continuação aquele bebé que cantarolava poemas pela casa.

      Hoje tive outro crupe. Foi menos forte que o anterior, mas ainda estou com as pernas a tremer de susto. Enfim... terei nova consulta na terça-feira, logo se verá.

      Um beijinho muito grato

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