CRUPE, MALVADO CRUPE!

outono - ciencia y caridad, picasso.jpg


CIÊNCIA E CARIDADE - Tela de Pablo Picasso


*


CRUPE, MALVADO CRUPE!
*



Escrevo estes versos pra quem


De Crupe tenha sofrido


E, tendo sobrevivido,


Saiba como fica alguém


Que quer ar e que ar não tem...


Tive um a noite passada


E julguei que, desta vez,


Morreria da escassez


Do ar de que fui privada...


Em vão tentava inspirar:


Mal à garganta chegava,


Logo nela o ar estacava


Em vez de por lá passar...


Foram segundos? Minutos?


Foi tempo suficiente


Pra dele eu ficar temente


E, em termos absolutos,


Jurar que hoje não me deito,


Nem me recosto, sequer!


Se amanhã por cá estiver


Vos direi qual o efeito


Da directa programada


A que me vou submeter:


Assim, se o Crupe vier,


Vai dar comigo acordada


Com o vapor d`água à mão


E c´o uso da razão


Qu`inda me não foi negada...


Decerto o vou combater


Muito mais eficazmente


Do que ontem, inconsciente,


A sonhar, sem o prever...


Não, Crupe, hoje não me apanhas


Desprevenida, a dormir!


Hoje, mal eu pressentir


Que na laringe te entranhas,


Com vapor de água te ataco,


Será de pé que te enfrento...


Talvez não vença, mas tento


Deixar-te feito num caco


Enquanto de ti me escapo


E preservo o meu alento!
*


 



Mª João Brito de Sousa


18.11.2024 - 01.40h
*




Crupe= Laringotraqueobronquite,


doença muito mais típica dos bebés e crianças até aos três anos,


mas que, pelos vistos, também pode declarar-se em 


septuagenárias com o sistema imunitário deprimido


*


 


 


 

Comentários

  1. Confesso que já andava preocupada com a sua ausência. As doenças do foro respiratório são terríveis. Lamento que sofra assim a ponto de ficar inibida de respirar.. Eu também sou vítima de uma semelhante. Gostei da tela de Picasso. Tinha saudades suas.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Bom dia, Graça.

      Fico-lhe grata por ter notado a minha ausência... ou, melhor, o meu silêncio, e por ter tido saudades da minha humilde pessoa.
      Tem toda a razão: as doenças do foro respiratório são terríveis, mas este episódio de Crupe que foi extremamente angustiante e que aqui trago aligeirado e algo ironizado pela musicalidade dos versos em redondilha maior, foi um episódio único que apenas teve lugar na madrugada de Sábado para Domingo. Embora eu esteja, agora, com uma infecção respiratória, não foi ela que me manteve tanto tempo afastada da poesia e do vosso convívio e sim um agravamento do meu estado geral, bem como os efeitos secundários de dois medicamentos que há alguns meses me foram prescritos e que rapidamente me deixaram a Musa em estado catatónico. Como já referi, este tipo de efeitos secundários não vem explanado em nenhuma bula... Nunca ninguém leu numa bula do Infarmed que, além de poderem provocar "confusão, dificuldade em falar, alterações de humor, hostilidade, dificuldade no pensamento, etc." (sic), alguns medicamentos pudessem também "anestesiar musas" ou deixar uma poeta incapaz de escrever como escrevia. Ou de ler como lia.

      Quanto à tela de Picasso, esta foi pintada quando ele era um menino de apenas 16 anos. Foi premiada na Exposição Provincial de Belas Artes de Málaga e recebeu uma menção honrosa na Exposição Nacional de Arte de Madrid.

      Que tenha uma excelente semana, Graça.

      Um beijo

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  2. Como não conhecia o termo, tão pequeno e de aparência inofensiva, nem sabia que a Mª João nos ia esclarecer sobre essa inflamação da traqueia e da laringe, causada por uma infecção viral contagiosa, tratei de me ir informar. Tão pequeno e estranho nome para tão grande infortúnio.
    Acho bem que a nossa Poeta não se deite, mas deve recostar-se na cama com uma ou duas almofadas que lhe endireitem o tronco, assim essa malvada não vai apanhá-la desprevenida... Se tiver de passar pelas brasas, passa, mas sem se queimar.
    Que mais lhe irá acontecer?! Realmente, a vida é muito ingrata.
    Um beijinho pesaroso, embora não possa deixar de sorrir perante a sua vontade férrea, em encontrar inspiração em algo tão mau escrevendo um poema com tanto sentido de humor .
    Grande Mulher é a Maria João!
    Forte abraço e um cravo perfumado!

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    1. Viva Janita!

      Agora deixou-me "sem jeito" por causa desse "grande mulher" Mas, pronto, penso que temperar um momento de tremenda aflição com algumas especiarias e servi-lo em forma de poema numa travessa de barro, me ajuda a desdramatizar o susto e a ficar mais bem preparada para o próximo que eu bem dispensaria, mas que a vida duramente me ensinou que fatalmente virá enquanto eu por cá andar.

      Estava eu muito convencida de que o justificadíssimo medinho/pavor de uma nova crise seria suficiente para me manter acordada, mas bem enganada estava que lá para as quatro da madrugada, rendi-me a Morfeu sem sequer dar conta disso. Tive a sorte de acordar viva sem ter tido de passar pelo tremendo susto da noite anterior, ufff...
      Preveni-me, claro, aspirando o vapor de água de um panelão que pus ao lume e tomando o único anti-inflamatório não esteróide que posso tomar e que também se dá muito aos bebés, o velho e eficiente Maxilase, passe a publicidade.

      A infecção respiratória não dá sinais de abrandar e é bem possível que amanhã tenha mesmo de ir ao centro de saúde.

      Obrigada pelas generosas palavras e pelo cravo perfumado.

      Um GRANDE abraço, Janita

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  3. "Malvado crupe", que viralizou este belíssimo poema, em 42 versos (?), se não me enganei. De 7 sílabas! (Redondilha maior: é assim que se nomeia') Poema de 1 estrofe só? 42 versos são 6 X 7!
    Magnífico! O SAPO e a Poesia voltaram a ficar mais ricos. Saúde!

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    1. É isso mesmo, Francisco, "ah, crupe, malvado crupe!", que isto é coisa que nem ao demo se deseja!

      Não estando no meu melhor porque sendo muito tarde - para mim, claro - e estando sob a acção dos medicamentos de que lhe falei , nem sequer me dei ao trabalho de contar os versos, apenas escrevi ao correr das teclas até me cansar de teclar e sentir que o medo de enfrentar um novo episódio de crupe começava a tomar proporções menos dantescas. Olhe, foi um pouco como passar pelo Adamastor um pouco mais segura de mim e sem entrar em pânico...

      Muito obrigada, meu amigo. Desejo-lhe uma excelente semana.

      Votos de muita saúde e Paz.

      Um fraterno abraço

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  4. Teresa Palmira HOFFBAUER18 de novembro de 2024 às 17:01

    Andava muitíssimo preocupada com a sua ausência, Maria João.
    Escrevi vários @mails que depois não tive a coragem de enviar.
    Não queria incomodar.
    O poema descreve de uma forma intensa o seu sofrimento.
    Não conhecia a tela de Pablo Picasso.
    Abraço amigo, desejando-lhe tudo de bom 🌻

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    1. Lamento tê-la preocupado, Teresa, mas, muito provavelmente nunca teria chegado a ler os seus emails ainda que mos tivesse enviado... Estou ainda a medir forças com uma crise de grafofobia que durante muito tempo me impediu de sequer pensar em abrir a minha caixa de correio electrónico.
      Neste Crupe, Malvado Crupe!, embora tendo tentado descrever pormenorizadamente o sofrimento - e o tremendo susto... - não me rendi a ele e atrevi-me a temperar-lhe o final com alguns versos cheios de ironia, o que foi muito catártico para mim e acabou por me valer algumas horas de sono, não sem antes ter longamente respirado o vapor de uma panela de água que pus ao lume e tomado, pelo sim, pelo não, o único anti-inflamatório não esteróide que posso tomar.
      Fico muito contente por vê-la aqui e ainda mais por lhe ter podido do dar a conhecer esta tela que Picasso que Picasso pintou ainda na adolescência. Esta tela faz agora parte do acervo do Museu Picasso de Barcelona.
      Para si, também, o meu abraço sincero e amigo

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  5. Excelente!
    Boa noite e boa semana, Maria João.
    Um abraço.

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    1. Viva, Cheia!

      Espero bem que o malvado do crupe não volte a pregar-me nenhum susto e que consiga, realmente, ter algumas horas de sono.
      Hoje não creio que consiga escrever seja o que for. Continuo muito engripada e a Musa sumiu-se novamente...
      Para si, também, uma boa semana e uma noite repousada.
      Um abraço

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  6. Olá querida Mª João, precipitada li "trupe", e por ali fui lendo a julgar-te em boa companhia, até perceber que não, é crupe, termo que de todo desconhecia, maleita terrível, assustadora!

    Teve no entanto o único fruto bom, foi este poema em verso irrepreensível, e o teu regresso à escrita, com uma pausa na grafofobia.

    Espero que a directa programada não seja acompanhada de mais episódios de falta de ar, e que possas mitigar essa patologia de alguma forma, senão outra, com poesia.

    Melhoras sinceras e votos para que a noite se revele, afinal, sem contratempos.

    Um enorme Xi-coração querida Mª João.

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    1. Olá minha linda Cotovia!

      Ahahahaha! Adorei essa tua troca de "crupe" por "trupe"
      Mas olha que escrever este longo poema e temperá-lo com uma boa dose de ironia no final, fez-me muitíssimo bem e ajudou-me a passar incólume pelo Cabo das Tormentas ;)
      O pior é que outra noite de sono se aproxima e eu continuo a temer um novo encontro com o raio do Crupe malvado. Vou ter de ir fazer muito mais vapores e não posso esquecer-me do anti-inflamatório.
      Que tenhas, também, uma noite quentinha e repousada.

      Um enorme xi-coração, querida Cotovia

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  7. Maria João, só posso desejar que o crupe já lhe tenha passado e que nunca mais volte. Não faz falta nenhuma a ninguém. Em miúdo também tive disso e era horrível, uma aflição. A minha mãe chamava-lhe "tosse de cão". Ela mesma, aliás, teve disso lá por volta dos seus 50 anos de idade.

    Quanto à tela de Picasso, confesso que não a conhecia. Em Viena vi dois ou três quadros dele que eram contemporâneos deste e que demonstram, para além de qualquer dúvida, que Picasso sabia pintar e pintava muitíssimo bem. Picasso fez a revolução que se sabe na arte do séc. XX não porque não soubesse, mas porque quis. Rasgou-nos novos horizontes e por isso foi um génio.

    Um abraço

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    1. Obrigada pelos seus votos de melhoras, Fernando.

      Este meu crupe veio na sequência de uma traqueobronquite que me tem andado a consumir há uns dias, mas que por me apanhar a dormir e tendo-se manifestado como edema da laringe, me pregou um susto de morte. O ar não entrava nos pulmões por mais que eu me esforçasse. Valeu-me acordar a tempo e tentar contentar-me com um fiozinho de ar que, ao passar pela laringe, produzia um barulho que parecia um uivo áspero e rouco. Durou o tempo suficiente para eu julgar que não iria viver para "cantar a história", e como o quadro infeccioso se mantém, continuo de pé atrás, não vá o demo tecê-las.

      Esta tela de Picasso foi pintada na sua adolescência e valeu-lhe uma medalha Regional e uma menção honrosa Nacional. Mais tarde ele gozaria com este seu trabalho dizendo que o médico - a quem o seu pai servira de modelo - segurava na mão uma "luva velha" . Foi a sua irmã Flora quem serviu de modelo à moribunda acamada.
      Nem por um segundo, desde que me recordo de ser eu, duvidei que Picasso fosse um dos maiores génios da pintura, se não o maior de sempre, pelo menos até aos dias que correm.

      Um abraço

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