CANTAROLANDO COM CAMÕES NO SEU QUINGENTÉSIMO ANIVERSÁRIO

Eu, dois ou três meses.jpeg


92.


Cantiga


a esta cantiga alheia


"Perdigão perdeu a pena,


não há mal que lhe não venha":
*


VOLTAS
*


Perdigão, que o pensamento


subiu em alto lugar,


perde a pena do voar,


ganha a pena do tormento.


Não tem no ar nem no vento


asas, com que se sustenha:


não há mal que lhe não venha.


Quis voar a üa alta torre


mas achou-se desasado;


e, vendo-se depenado,


de puro penado morre.


Se a queixumes se socorre,


lança no fogo mais lenha:


não há mal que lhe não venha.
*


Luís de Camões
*



Perdigão perdeu a pena?


Não! Fui eu quem lha roubou,


eu que toda penas sou


e delas m`encontro plena,


eu que da grande à pequena


delas me encontro coberta,


eu que vim de parte incerta


pr` arrancá-la a Perdigão


por bondade e compaixão


e tão só para o livrar


do peso que a pena tem...


Viu-se pobre e desasado


Perdigão ao ser roubado?


Se o roubei, fi-lo por bem,


não o deixei sem vintém,


só quis vê-lo aliviado


do peso desse mau fado


que é ter penas, mais de cem:


Deixei-o, de penas, sem...


Como ficou mais pesado


se de penas despojado?
*



Mª João Brito de Sousa


17.11.2024
***


O poema de Camões foi retirado do blog Sociedade Perfeita

Comentários

  1. Muitos parabéns por esta redondilha, no Cantarolando Com Camões.
    Boa tarde, Maria João!
    Um abraço.

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    1. Obrigada, Cheia.

      Parece que a febre da infecção respiratória abriu um buraquinho na muralha do meu silêncio...

      Mas não prometo nada, agora estou que mal me tenho de pé e preciso de ainda mais tempo para fazer o muito pouco ou quase nada que me é absolutamente essencial.

      Que tenha uma excelente tarde.

      Um abraço!

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  2. Fiquei imensamente contente com a sua volta à poesia, Maria João.
    Estas conversas com Camões são muito gratificantes.
    Entre tantas penas de que pena, algum alívio lhe trará compartilhar connosco essas penas. Alivia o seu penar e a nós, seus leitores, e admiradores, também nos faz bem.
    Um grande beijinho, querida Mª João.

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    1. Olá, Janita!

      Obrigada, mas isto foi só um assomarzinho às vossas janelas. Continuo completamente desmotivada e desmusada, além de cada vez mais fracota em termos de alento e talento.
      Hoje não resisti a esta bela cantiga de Camões :) Amanhã, é bem provável que tenha de ir ao centro de saúde e que continue dominada pela grafofobia dos últimos meses...

      Um grande beijinho, Janita

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  3. Glosar Camões, assim com esta genialidade, só mesmo Mª João.
    Bom regresso. Melhoras. Saúde e Paz, que tanta falta faz.
    Camões usou os 14 versos. Duas sétimas.
    Mas a Mª João acrescentou mas sete. Três vezes sete! Cada verso com 7 sílabas!
    7, nº primo e mágico da Criação!
    Saúde e que não falte a Musa!

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    1. Muito obrigada, Francisco, por tão elogiosas palavras a estas minhas três sétimas ao correr das teclas, que não posso garantir que sejam mais do que um pequeno e fugaz atrevimento poético, bem como pelos votos de saúde que é um dos bens que mais me vão faltando a cada dia que passa.
      Com a doença, consegui lidar muito razoavelmente durante as últimas décadas, mas atrevo-me a dizer que dois dos medicamentos que mais recentemente me foram receitados, podem ser muito bons no combate à dor crónica, mas "anestesiam-me" a Musa. Claro que este tipo de efeitos secundários não vem explanado na bula... Nunca ninguém leu que além de poder provocar "confusão, dificuldade em falar, alterações de humor, hostilidade, dificuldade no pensamento, etc. (sic)" o medicamento pode também anestesiar musas ou deixar uma poeta/isa incapaz de escrever uma quadra que seja...

      Para si, também, votos de excelente saúde e muita inspiração

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