MARIA SEM CAMISA, 2024

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MARIA SEM CAMISA, 2024



*
I
*


Quando essa Maria viste


tão triste quanto alquebrada


no fundo não viste nada


pois Maria, embora triste,


sempre à tristeza resiste:


Guarda nela a madrugada


que em tempos se fez à estrada


da justiça que lhe assiste,


que não morreu, que persiste


muito embora atraiçoada
*


II
*


Viste Maria passando


com Abril no seu regaço,


mais segura a cada passo


de quanto passo ia dando


até Novembro... foi quando


sem o ver, pisou um laço


de armadilha num pedaço


do chão que estava lavrando,


por desgraça condenando


Abril a quase fracasso
*


III
*


Julgas morta essa Maria,


mas do chão que ela lavrou


outra Maria brotou


trabalhadora e sadia:


É essa a que aguarda o dia


que a outra testemunhou


nesse Abril que já passou


mas que cheio de ousadia


plantou a Democracia


no mesmo chão que a matou
*


IV
*


Se a não vês porque a cegueira


de algum Novembro traidor


te vendou, olha melhor


para que a vejas inteira


ao lado de uma ceifeira


que a irmanava em valor


já que por causa maior


também lutou sem canseira


até tombar numa leira


regada plo seu suor
*


V
*


Sei que há muitos confundidos


pelos seus póprios algozes


que em conjunto erguem as vozes


fingindo - pois são fingidos! -


não serem grandes bandidos


que intentam coisas atrozes


pra dar em pequenas doses


aos que lhes fiquem rendidos


e os queiram bem recebidos


mesmo sendo bestas f`rozes
*


VI
*


Eu, que conheço Maria,


não posso ter pretenções


a calar esses vilões


através da poesia


e prevejo uma razia


que trará contestações...


Cá tenho as minhas razões


pois sei que a demagogia


sempre serve a vilania


que puxar por mais galões...
*


VII
*


Ó mulher de pouca fé,


ó homem de fraco senso,


se pensais tal como eu penso


porque andais de marcha à ré?


Pois não vedes que a maré


deste mar enorme, imenso,


vai e vem sempre em consenso


com o que ela própria é?


Se podeis por-vos de pé


Sois da espécie a que pertenço!
*


VIII


*
Mas se, enfim, temeis perder-vos


neste mar em que navego,


eu nenhum temor vos nego,


também eu sou carne e nervos


já nada posso valer-vos,


pouco mais vejo que um cego...


Mas não sou serva de um ego


que me diga não dever-vos


mais do que devem os servos


aos que lhes dão bom emprego!
*


IX
*


Como tal, aqui me vedes,


descamisada e sem Musa,


vestindo uma velha blusa


e entre estas quatro paredes


onde matei fomes, sedes,


mil coisas que ninguém usa


e onde escrevo o que hoje abusa


dos que navegam nas redes


qu`rendo ler, como vós qu`redes,


prosa curta e não profusa...
*


X


*
Mas se em verdade lamento


retornar desta maneira


tal qual jorro de torneira


que travar nem sequer tento,


de jorrar mais me contento


que de ficar na cadeira


cansada de ser canseira


prá madeira em que me sento


em vez de ousar, como o vento,


ir beijando a Terra inteira.
*


 


Mª João Brito de Sousa


06.06.2024 - 23.15h
***


Imagem com cerca de uma década


digitalizada pelo camarada João Luís Ventura


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. Excelente! Muitos parabéns.
    Um abraço, Maria João!

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  2. Que bonito.
    Gostei imenso, Maria João

    Beijinhos
    Feliz Dia

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  3. Excelentes décimas, Maria João. Escreve genialmente. Ao ler os seus versos metrificados - 7 sílabas - evocaram-me tantos Poetas nas suas belíssimas imagens poéticas.
    Votos de muita saúde é o que lhe desejo - sentia-se a sua ausência - volte sempre que puder, que a sua Musa é de excelência. Saúde e PAZ!

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    1. Muito obrigada pelas suas generosas palavras, Francisco.

      Confesso ter voltado ainda muito insegura de conseguir manter as publicações e as visitas diárias ou mesmo semanais aos blogs dos amigos. Estou a tentar avaliar os meus novos limites que sei estarem agora muito aquém do que estavam há alguns meses. A saúde não ajuda e alguns medicamentos que me auxiliam a manter o corpo razoavelmente funcional, cobram um alto preço à minha velha musa e fazem murchar a minha criatividade.
      Mas, sim, virei sempre que puder embora neste e nos próximos dois meses tenha de andar a saltitar de hospital em hospital porque fui convocada para uma profusão de consultas de diversas especialidades médicas.

      Saúde e Paz

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  4. Maria Elvira Carvalho7 de junho de 2024 às 22:07

    Um poema de que gostei muito.
    Votos sinceros de boas melhoras.
    Abraço e saúde

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    Respostas
    1. Que bom vê-la por aqui, Elvira! :)

      Agradeço e retribuo os votos de boas melhoras e envio-lhe o forte e sincero abraço de sempre

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  5. Estive, por largos minutos, sem fôlego, esmagado pelo peso e, simultaneamente, pela beleza e Arte que uma vez mais puseste na concepção de mais este filho!
    Aqui para nós, conseguiste fazer-me tremer, quase chorar...
    Disseste-me uma vez que não eras tão grande como eu insistia em dizer que eras.
    Com este diamante que acabei de ler, forças-me a insistir:
    "És uma das grandes Poetisas contemporâneas, se não a maior.
    Gere isto como quiseres.
    Obrigado por me obrigares a este "longo" desabafo.
    Beijos.

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    1. Viva, Carlos!

      Ai, que eu giro muito mal os grandes elogios: ora fico sem palavras, ora vou debitando meia dúzia de frases atabalhoadas que quase sempre terminam num rotundo OBRIGADA seguido de uma fuga apressada

      Mas não, desta vez não vou fugir sem deixar um GRANDE abraço para ti e outro para a tua Tila

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    2. Abraços aceites e retribuídos

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  6. Que belo poema, Mª João!
    E tão revelador do que lhe vai na alma.
    Isto sim, é escrever Poesia com sentido. Não são palavras amontoadas, ocas, escritas à toa para preencher uma folha de papel, cumprir uma obrigação. As suas palavras têm conteúdo, dizem-nos da intenção para o qual foram concebidas. Desnudar-se, desnudando os seus reais sentimentos.
    Penso que este poema não tem nada a ver com a imagem em que diz apoiar a CDU. Isso já todos nós sabemos.
    Mas isto sou eu a pensar alto...

    Um grande abraço com votos de melhoras, Mª João.

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    Respostas
    1. Olá, Janita!
      Obrigada pelo voto de melhoras e
      pelas suas elogiosas palavras. Não costumo gerir muito bem os elogios, normalmente fico engasgada e, ou me calo, ou deixo escapar um chorrilho de palavras que nada têm a ver com o que me foi dito/escrito

      Bem sei que o meu apoio à CDU não é segredo para nenhum de vós, mas pode sempre aparecer algum leitor desgarrado que me não conheça e ainda esteja hesitante na sua orientação de voto.
      São os meus cinco cêntimos para a campanha eleitoral, que estas décimas foram escritas e publicadas como manda a lei: antes do período de reflexão

      Um grande abraço

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  7. Boa tarde, Maria João
    Na mesma onda, mas não tão elevada, lhe envio este escrito que, comparado aos seus poemas, não é nada -
    " 3

    A Luta do dia a dia

    Esta luta do dia a dia,
    De todos combates, o mais duro
    É ter os pés assentes na terra,
    E não se ter medo do futuro.

    Ó companheira, ergue a voz,
    Ó companheiros, dai-vos a mão.
    Ó companheira, lê os sinais
    Que apontam à revolução.

    Um camarada só não tem força,
    Será, quando muito, o fermento
    Que destes fracos nos fará fortes
    Todos unidos num só intento

    Que, quando acabada a luta,
    Chegará a justiça à Terra.
    Em que todos comerão o pão
    E não haverá quem coma merda.
    (024/06/08)»
    em - (Re)Levantar - canção 3.
    Zé Onofre, divulga «Mota Barbosa»

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    Respostas
    1. Ai, Zé Onofre, mas como pode dizer que o seu LUTA DO DIA A DIA não é "nada" em comparação com o meu MARIA SEM CAMISA, 2024?

      Estamos na mesma onda, lutamos pelos mesmos direitos e a única diferença é que eu escrevo poesia metrificada e o Zé escreve poesia de verso livre. Em termos de trabalho real vale, muito provavelmente, bem mais do que eu que mal consigo caminhar 50 metros agarrada a uma bengala e estive em silêncio durante quase toda a campanha eleitoral. Foi por questões de saúde, mas o Zé Onofre mexeu-se e eu fiquei à espera do penúltimo dia para conseguir encher-me de coragem, vencer a apatia e escrever qualquer coisa que jeito tivesse.

      Obrigada por partilhar comigo o seu trabalho!

      Um abraço

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