CONVERSANDO COM SÁ DE MIRANDA

Sá de Miranda por João Abel Manta- Fernando Ribeiro.jpg


COMIGO ME DESAVIM
*



Comigo me desavim,


sou posto em todo perigo;


não posso viver comigo


nem posso fugir de mim.
*



Com dor, da gente fugia,


antes que esta assi crecesse;


agora já fugiria


de mim, se de mim pudesse.
*



Que meo espero ou que fim


do vão trabalho que sigo,


pois que trago a mim comigo,


tamanho imigo de mim?
*



Francisco Sá de Miranda


(1481–1558)


meo = mais
***


 


COMIGO NÃO DESAVINDA
*



Comigo não desavinda,


Eu mesma em p`rigo me ponho;


Vôo de sonho pra sonho


Pondo as asas na berlinda
*



Se cansada, me deitava


No verso que em mim nascesse,


Hoje esfriei como lava


De vulcão que enfim morresse...
*



Mas no trabalho que em vão


De minhas mãos vai nascendo


Se vez por outra me acendo,


Volto a ser fogo e vulcão!
*



Mª João Brito de Sousa


04.10.2023 - 14.00h
***


Poema de Sá de Mirada e gravura de João Abel Manta gentilmente cedidos por Fernando Ribeiro
do Blog A Matéria do Tempo.
***

Comentários

  1. Olá querida Mª João!
    Fiquei maravilhada com os poemas, obrigada pela partilha.
    Tenho uma pergunta, imigo é o antónimo de amigo?
    Adorei a gravura, magnífica!
    E sim, este poema que teceste está semana mostra bem como:
    "me acendo, /Volto a ser fogo e vulcão!
    E que bem querida Mª. João!
    Bravo!
    Beijinhos axicorãozados, noite tranquila, e um enorme Xi !💤💤

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    1. Sim, o poema de Sá de Miranda ainda apresenta alguns arcaísmos e "imigo" é mesmo o antónimo de amigo.
      Foi por ter ficado à espera da autorização do amigo Fernando S. Ribeiro que não o publiquei logo. Mas, já que estou com a mão na massa , lembro que Sá de Miranda foi o introdutor da "nova medida" - o decassílabo - neste nosso jardim à beira mar plantado, bem como o "pai" do soneto em língua portuguesa. Tenho este poeta pioneiro em "mui grande conta".
      Quanto à ilustração de João Abel Manta, é uma pequena maravilha, como não poderia deixar de ser.

      Obrigada, noite tranquila e um grande beijinho axicoraçãozado

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    2. Olá olá querida Mª. João!
      Sá de Miranda é de facto um poeta inspirador, e este exacto poema em que o "conflito do eu" está tão presente, foi em parte a inspiração para o meu soneto "Honorato" ("Esta reflexão sobre "o valor do "Eu"/
      Relacionada está com Prometeu.../)
      E fiquei a pensar agora se apesar de ser óbvia a referência, a deveria ter explicitado numa nota ou observação (?) Mas muitas vezes as influências são inconscientes e decorrentes das vivências e daquilo que vimos, vivemos, do que lemos. Apenas quando o talento poético é de extraordinária inovação é que é possível descolar os vôos poéticos para uma linguagem própria, única, já distante das influências, como está presente/patente na tua Poesia.
      Muito obrigada pelas tuas partilhas, outras Pessoas podem assim ter este gosto imenso de as apreciar, é de certa forma a democratização da Poesia mas nada justa para os seus autores, que deveriam ser justamente recompensados porque embora a muito romantizada imagem do poeta o apresente a viver do ar e da sua poesia, num mundo à parte, a verdade não é essa.
      Beijinhos axicorãozados querida Mª João, espero que estejas melhor e que tenhas um sábado de descanso e muita criatividade! 🐦

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    3. Olá, minha pequena Cotovia!

      È bem verdade que a própria realidade tratou de que a maioria dos poetas tivesse mesmo de viver do ar, como se não fosse tão de carne e osso como todos os humanos... Por outro lado, também não conheci nenhum poeta que fosse muito apegado ao vil metal, e olha que conheci uns poucos.
      Quanto ao teu Honorato, que irei lr já a seguir, não sei se é boa ideia colocar muitas notas e observações, embora eu também as faça porque tomei consciência de que muito poucos sabem que o soneto pode ter vários formatos melódicos, desde as sete sílabas poéticas do sonetilho até ao dodecassilábico alexandrino. Não menciono o bárbaro porque não gosto nada dele, embora o único que tenha escrito, completamente a destroçar o que escrevia num rasgo de ironia, acabasse por ir parar ao meu último livro. E nem sequer está metricamente homogeneizado - com igual número de sílabas em todos os versos -, condição sine qua non para um poema composto por duas quadras e dois tercetos poder ser chamado de soneto. Bom, já me alonguei demais, apenas para te dizer que o óbvio e até o simplesmente sugerido, não precisam de notas explicativas: cada leitor deve ser livre de fazer a sua própria leitura, por muito que algumas interpretações sejam praticamente a antítese do que escrevemos.
      Podes é aproveitar estas caixinhas de comentários para esclarecer alguém que te faça uma pergunta directa. São os prós e os contras destas já não tão novas tecnologias que permitem que publiquemos praticamente em directo E até nos permitem dar rédea solta à criança que ainda mora em nós e que não resiste a brincar com os emojis

      Um grande beijinho axicoraçãozado

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    4. Olá querida Mª João!
      Pois tens toda a razão, é mesmo uma tentação os emojis e também fico mais descansada que aches uma boa ideia as interpretações dos leitores, pois sou uma dessas criaturas que deixa ficar nas caixinhas as minhas considerações.
      E infelizmente, ou felizmente, parece que temos todos de nos alimentar, e a árvore das patacas, ou a mesa do "põe-te mesa" não pertencem a este mundo real, apenas o ficcionado.
      Bom início de semana, um beijinho axicorãozado! 🐦

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    5. Já estava a estranhar a ausência dos teus vôos, pequena Cotovia...

      Hummmm, estou sempre a fiar-me nas notificações do Ilustre Batráquio e elas podem estar atrasadas... Vou ver se o teu Honorato já foi publicado.
      Beijinho e outro xi

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    6. Olá novamente, querida Mª. João!
      Ainda não consegui terminar a "construção" do Honorato, iniciei as correções com base na divisão das sílabas poéticas que me enviaste, sempre generosa, mas ainda não tenho a versão final para poder publicar.

      Tenho estado numa correria entre um vôo e outro e hoje publiquei uma surpresa, troquei a ordem das publicações, mas na 4a espero conseguir publicar mais um poema

      Um beijinho axicorãozado e vou voando agora para comentar o teu poema "Mãe II" tão lindo e também ele uma demostração inspiradora de bondade e ternura. Enorme Xi, querida Mª João!

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    7. Já vi, já vi... Estou na tua galeria de fotos, deslumbrada e a votar como se não houvesse amanhã. Mas vai haver e não me vou poder demorar muito mais por lá porque tenho mil e uma coisas por fazer e amanhã vou estar ocupada toda a manhã até meio da tarde.

      Beijinho axicoraçãozado

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    8. Muitíssimo obrigada pelo teu voto, querida Mª. João fico muito feliz que tenhas gostado da fotografia!
      Também ando um pouco desorientada nos meus vôos, que é uma coisa diferente de afã, o afã é bom , já andar neste desassossego nem por isso!
      Espero então que corra tudo bem amanhã nos teus compromissos, um grande beijinho axicorãozado e um Dia enorme enorme, obrigada, querida Mª. João. 🐦

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  2. Como, às vezes, seria bom cada um fugir de si mesmo! Saúde e Paz!

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    1. Boa noite, Francisco!

      Sá de Miranda tentou fazê-lo com requintada ironia, mas não obteve o que pretendia. Em compensação, obtivemos nós este esplêndido poemeto em quadras.
      Confesso que também senti essa vontade mais do que uma vez, quando se aproximava a hora de arrancar mais um dente e, provavelmente, voltarei a senti-la, na próxima semana, quando chegar a hora de ser submetida a uma infiltração no joelho.

      Saúde e Paz

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  3. Muito obrigado, Maria João, pela referência à minha pessoa e ao meu blog. Pelo que me diz respeito, apenas reproduzi o que encontrei por aí. A Maria João, pelo contrário, publica material que é de sua própria lavra, e ainda por cima é de alta qualidade. Comparado consigo, sou um zero à esquerda. Tome boa conta de si, que a sua inspiração faz-nos falta.

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    1. Por favor, não diga isso, Fernando! Tenho aprendido imenso no seu A Matéria do Tempo, embora nem sempre deixe algumas palavras de agradecimento.
      Quanto à minha inspiração/Musa, já não tem a exuberância que teve, mas ainda me vai "acendendo" de vez em quando.
      Um grato abraço!

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