A CEIA DO POETA II - Reedição
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Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia
*
A CEIA DO POETA II
*
São cinco e meia da tarde,
Mas o Sol arde num grito
Sobre um esboço de infinito
Que espero que alguém me guarde,
Sem choros, nem grande alarde,
Sob um bloco de granito…
Espero, espero, mas… hesito,
Sabendo bem que o Sol arde,
Sei que me torno cobarde
Porque o fito ou quando o fito...
*
Como não esperar de alguém
Essa mesma hesitação,
Quando eu, tendo esta paixão,
Chego a hesitar também?
E quem sabe o que lá vem
Desta humana condição,
Quando o que trai um irmão,
Também trai o pai, a mãe,
E tudo o que lhe convém,
Sem consciência da traição?
*
Nesta tarde, às cinco e meia,
Quanto ficou por nascer
Do que alguém tentou escrever?
Quanta estrofe é mera ideia?
Nos quadris de cada aldeia,
Quanto espanto por colher?
Que rimas, das de comer,
Sobram de um poeta, à ceia?
E, se já nada o refreia,
Quem é que o pára ao morrer?
*
Maria João Brito de Sousa
15.04.2017 – 11.44h
***

Nestes tempos em que receio pela humanidade, esta ceia do poeta cheia de humildade e consciência trouxe uma reflexão sobre as escolhas, também a traição. Quanto tem de traição aquele que prejudica, ao ponto de lhe roubar a vida, o seu irmão?
ResponderEliminarQuanta ligação existe entre guerra e pão, entre bondade e ambição, entre todos os opostos que são condição humana, o seu "alimento"? Tantas questões debaixo deste sol:
"Sol arde num grito
Sobre um esboço de infinito
Que espero que alguém me guarde,
Sem choros, nem grande alarde,"
Beijinhos axicorãozados querida Mª João, muito obrigada pela partilha deste poema tão emotivo. Enorme Xi , uma noite tranquila.
P.S. perdi um comentário teu sobre o teu atribulado dia, não o consigo encontrar novamente para te poder responder. Peço desculpa, amanhã tento ver na caixa postal se o encontro.
O que foi um bom por de Sol
ResponderEliminarBela quarta feira com alegria
e harmonia de sorriso bonito MJ, beijinhos
A ceia do poeta é quase sempre amarga.
ResponderEliminarBoa tarde, Maria!
Um abraço.
"...Que rimas, das de comer, / Sobram de um poeta, à ceia? ..."
ResponderEliminarDesgraçado do Poeta que sofre, mesmo tendo a Poesia! Lembra-me muito o "Fado" de J. Régio.
E o 'sol arde num grito' e continua a arder diante do que assistimos
ResponderEliminara cada manhã, tarde ou noite...
Suas reedições são tão coerentes com o que vivemos desde 2017 .
E, bom é que ia na tua página e nunca me atrevi entrar, quando senti que podia foi
grandea surpresa do carinho que recebo sempre., a boa acolhida de quem mal
sabe escrever diante da poetiza. Continue reeditando, amiga.
Um abraço forte,Maria Flor (essa florzinha que eu gosto muito ! )
"E quem sabe o que lá vem
ResponderEliminarDesta humana condição,"
Que tendo perdido a razão
Perdeu a Alma, também?
Li teu poema, sob o som do telejornal...
Abraço, assustado
"E quem sabe o que lá vem
ResponderEliminarDesta humana condição,
Quando o que trai um irmão,
Também trai o pai, a mãe,
E tudo o que lhe convém,
Sem consciência da traição?"
Reflexivo e inspirador o seu poema. Como podemos não sofrer nem ficar inquietos com a humanidade em descontrolo e ódio?
Tudo de bom.
Uma boa semana.
Um beijo.
É um belíssimo poema, na sua toada triste.
ResponderEliminarGostei muito.
Beijinho e cuida da tua saúde.