SONETILHO ANTI ANTI-SONETO

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Anti-Soneto


Ao Mário Sá Carneiro
*


O nosso drama de portugueses,


O nosso maior drama entre os maiores


Dos dramas portugueses,


É este apego hereditário à Forma:


Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,


Às virgulas certas, às quadras perfeitas,


À estilística, à estética, à bombástica,


À chave de ouro do soneto vazio


- Que põe molezas de escravatura


Por dentro do que pensamos


Do que sentimos


Do que escrevemos


Do que fazemos


Do que mentimos.
*


Carlos Queirós Ribeiro


(in "Cadernos de Poesia, nº1, 1ªsérie, 1940)
***


RESPONDENDO AO POEMA "ANTI SONETO"


de Carlos Queirós Ribeiro
*


SONETILHO COM PONTOS NOS ii
*



Fosse esse o mal, caro amigo,


Estaríamos todos bem:


Quem coloca um mero artigo


No lugar que mais convém?
*



Quem conhece o metro antigo,


E a harmonia que contém?


Não sabe, amigo, o que é perigo,


Nem quer ver de onde ele nos vem!
*



Não tema os pontos nos ii,


Nem a vírgula certeira!


Aceite, como eu o fiz,
*



A poesia! Toda, inteira!


Não sabe, amigo, o que diz,


E o que afirma é pura asneira!
*


 


Mª João Brito de Sousa


01.09.202023 - 21.50h
***


 

Comentários

  1. Concordo com o Mário Sá Carneiro. Sem novas construções não há inovação.
    Bom resto de dia, Maria!
    Um abraço

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    1. O poema foi escrito para o Mário de Sá carneiro - que até era um mestre do soneto alexandrino... - mas é da autoria de Carlos Queirós Ribeiro, Cheia. Também compreendo que a poesia em verso branco e livre tenha sido importante, até porque foi esse o formato que segui até aos meus 55 anos. Parece-me é estúpido que se tenha de entrar em guerra aberta contra a poesia metrificada para se conseguirem impor novos formatos. Até Florbela Espanca foi ridicularizada por alguns intelectuais, nomeadamente Cândido de Figueiredo - conheci-o pessoalmente - que sobre ela escreveu: "é uma senhora que tricota uns versozinhos bonitinhos e açucarados enquanto toma chá com as amigas". Além do mais, Carlos Queirós parece não ter consciência de estar a desprezar toda a magnífica poesia popular portuguesa, quase toda escrita na medida antiga, a redondilha menor, que também é a medida do sonetilho com que lhe respondo.

      Um abraço, Cheia!

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  2. Não será a Poesia a suprema Liberdade do Verbo?! Que cada Poeta / Poetisa se exprima conforme se sinta mais enquadrado com os "ditames" da Musa! Viva a Poesia!

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    1. Boa noite, Francisco!

      Exactamente! Eu optei pela defesa da poesia metrificada, mas continuo a ler e a admirar poetas que optaram, como eu optei em tempos, por outros formatos poéticos.
      Viva a Poesia!

      Fraterno abraço!

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