QUE PODE O VENTO FAZER?

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QUE PODE O VENTO FAZER?
*


 


Que pode o vento fazer


Para expressar gratidão


Se o seu destino é correr


De alta pra baixa pressão?
*


Às vezes manso, calminho,


Sopra em nós uma frescura


Que traz alívio ao caminho


Quando o calor nos tortura
*


Outras, porém, de rajada,


Sem cuidar do mal que faz,


Leva tudo de abalada,


Não pára pra nos dar paz!
*


Mas... que pode, então, fazer


Para exprimir gratidão


Se nunca faz o que quer


E em si próprio não tem mão?
*


Um dia, sentes-lhe a falta:


Faz calor, ele adormece,


Mas logo se sobressalta


E o pé-de-vento acontece!
*


Roubou roupa ao teu estendal


E chicoteou-te o rosto?


Não terá feito por mal


E muito menos por gosto...
*


É assim por natureza


O vento que só conheces


Porque te abala a certeza


De seres tão só quem pareces...
*


Se assim é, como entender


Dever mostrar gratidão


Algo que nem tem poder


Pra mudar de direcção?
*



Maria João Brito de Sousa


2011
***

Comentários

  1. Esse malandro, invísivel, que às vezes nos abraça e outras nos dá encontrões.
    Feliz dia

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    1. Bom dia, Cheia!

      Esse maroto já deitou muito boa gente ao chão, aqui, perto da entrada da minha casa. Já era um sítio extremamente ventoso e quando ergueram as quatro torres do shopping Palmeiras a poucos metros do meu prédio, formaram um corredor artificial de vento que já provocou muitas e aparatosas quedas.

      Um abraço

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  2. Poema encantador. O vento pode destruir como pode acalmar e refrescar, Tem dias como diria o poeta pensador. A sua poesia é de elevado valor literário. Amo ler.
    *
    Beijinhos
    *
    *

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    1. Muito obrigada, Mariete!

      Ultimamente, pouco tenho produzido, este poemazito em quadras é uma reedição.

      Beijinhos

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  3. Como o génio do vento se junta ao génio da Musa, na genialidade da Poetisa. Saúde, paz e Poesia!

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    1. Muito obrigada pela gentileza das suas palavras, Francisco!

      Devolvo o abraço recheadinho de votos de Saúde, Paz e Poesia!

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  4. Olá Mª. João!
    Este vento invisível como o pensamento, que dá a volta ao mundo, desde que o mundo ainda nem sabia que era mundo. O mesmo vento que transportava as naus dos descobrimentos. E ao ler a tua poesia fico convicta de que também transporta a Musa até ti!
    Será este o calmo ou o outro agitado?
    "Às vezes manso, calminho,
    Sopra em nós uma frescura
    Que traz alívio ao caminho
    Quando o calor nos tortura"
    Cá seguiremos andando ao sabor deste vento que tanto nos chicoteia e escraviza, como liberta, nas naus da tua poesia a travessia é feita em boa companhia!
    Muito obrigada por esta partilha!
    Um grande Xi ♥️ Mª. João!🐦

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    1. Não me agradeças, linda Cotovia, que eu escrevo - ou escrevia? - com muitíssimo gosto e nunca me esqueço de que a poesia seria uma forma de arte perfeitamente inútil se não tivesse quem a lesse e tirasse prazer dessa leitura.
      É que hoje teimei em escrever um soneto desmusado de todo e se não lhe conseguir "dar a volta" esta noite, amanhã vou ter de voltar às reedições. Falta-me garra, que é o mesmo que dizer que me falta Musa...

      Um GRANDE XI

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    2. tudo a correr bem então, vais conseguir dar a volta sim, a Musa faz parte de ti e tu dela, Mª. João!
      Grande grande Xi!

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    3. Não sei, não, pequena Cotovia... este raio da Gabapentina não se dá nada bem com a Musa. E vice-versa. Preciso de estar muito, mas mesmo muito zangada com alguma coisa para que a Musa acorra e, ultimamente , não me tenho sentido nada zangada... E deveria, porque há muitíssimas coisas a acontecer sobre este planeta que não deveriam estar a acontecer e o abismo entre os obscenamente ricos e os obscenamente pobres continua a crescer.

      Outro Xi grande


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    4. Verdade Mª. João, e a falta de pão, de paz, a guerra e todas as misérias que me levaram a escrever o soneto "Sorte".
      Mas como a Musa estará dentro de cada um de nós, e se isso é uma realidade, será ainda mais verdadeiro para ti que és plenamente vida em Poesia, talvez a condição seja a de nesse lugar onde mora a tua Musa, bater a essa porta de mansinho, ou talvez ela tenha deixado uma janela entreaberta, para que possa generosamente manifestar-se, formalizando-se nesse soneto a que irás dar a volta.
      Um enorme Xi!

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    5. E eu sei lá onde fica essa porta, pequena Cotovia?!

      Se me perguntares onde fica o apêndice, o pâncreas, o fígado ou mesmo o esternocleidomastoideu, eu sei responder-te, mas se me perguntares onde está a Musa, fico tão engasgada quanto ficará qualquer pessoa a quem perguntes onde tem a alma.

      A Musa é assim parecida com a sede e a fome, embora não se comporte exactamente como elas porque, quando está para aí virada, é insaciável e pode andar a comer e a beber durante semanas a fio. Quando entra em pousio, nem eu sei onde se esconde, embora calcule que este específico pousio foi induzido pela Gabapentina.
      Este químico foi-me receitado para as dores na coluna - e resulta! - mas também é anti depressivo. Ora os antidepressivos podem ser óptimos para quem esteja deprimido, o que não é o caso, porque eu não estava nem perto de estar deprimida. Não podendo combater uma inexistente depressão, o raio do medicamento roubou-me a "garra poética" que eu nem sequer tinha posto no seguro, como fazem alguns pianistas que põem as mãos no seguro...

      Ahahahahah! Agora desmanchei-me a rir com a ideia de me ver a entrar numa companhia de seguros e tentar pôr no seguro a Musa e o Cavalo de Fogo, rsrsrsrs

      Vá lá que, ao sentido de humor, ainda nenhum medicamento mo roubou, rsrsrs

      Outro grande abraço, pequena Cotovia!

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    6. sim, a seguradora iria ter uma tarefa complexa em segurar um Cavalo de Fogo e uma Musa, são literalmente seres de vontade própria e impossíveis de segurar, ou capturar... Mas, pensando sobre isso, serão como quase todos os seres, chega uma hora e logo aparecem!!
      Por isso o sentido de humor é uma excelente companhia, anima e permite alcançar momentos de boa disposição, ainda bem que se pode contar com ele! se calhar está a guardar a janela que a Musa deixou aberta, e assim mais cedo se decidirá a sair de onde se escondeu... E se não, pelo menos vai sendo mimada com umas gargalhadas que é um som também muito bonito, embora suspeito, não seja muito melódico.

      Outro fortíssimo Xi Mª. João!

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    7. Não, não é nada melódico e tenho de rapidamente moderar as minhas gargalhadas porque aqui mesmo ao lado, paredes meias com a minha sala/atelier/torre-do-tombo depois de tombada, está um senhor mais velhotinho do que eu que está doente e que não lhes deve achar graça nenhuma, nem creio que perceba por que raio uma velhota que está completamente sozinha em casa se ri tanto e tão alto, rsrsrs

      Hummmm Sabes quando a Musa saiu mesmo do seu esconderijo? Foi quando eu soube que aquele apoio trimestral de 90 euros às famílias mais carenciadas só seria entregue por depósito em conta bancária e eu não tinha conta bancária nenhuma, embora constasse entre os tais que estão abaixo da linha da pobreza. Fiquei tão furiosa, por mim e por milhares de outros, que durante três ou quatro dias escrevi montada no cavalo de fogo. Já não me lembro do que escrevi, mas sei que a Musa empunhou logo a espada de poeta e saltou para a garupa do cavalo de fogo... Eu devia estar tão furiosa que a adrenalina veio toda ao de cima... Se não me engano, até escrevi uma Coroa com o Jay Wallace Mota e às tantas, apercebi-me de o meu não estava a aguentar o ritmo do Cavalo de Fogo, fui medir a TA - que havia muitos meses que estava baixinha - e lembro-me perfeitamente de que a sistólica estava em 179... da diastólica é que não me lembro, mas puxei de imediato as rédeas ao cavalo de fogo e desmontei com todo o cuidado para ir descansar até aquela adrenalina toda ser eliminada e a TA voltar aos valores normais. Mas foi depois de eu a ter mandado embora que a Musa desapareceu. Lembro-me de que ainda consegui tecer uma Coroa de Sonetos com o Custódio Montes, mas teci-a inteirinha sem ajuda da Musa, embora não esteja nada má. Ela não me aparece desde o dia em que a expulsei em nome da minha - e sua - própria sobrevivência.

      xi

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  5. Ao ler-te
    senti-me veleiro

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    1. Obrigada por isso, Rogério! :) Só pode ter sido uma excelente sensação!

      Forte abraço!

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