AS TEIAS QUE O LUAR TECE- Reedição
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Gravura de Manuel Ribeiro de Pavia,
in Livro de Bordo
de António de Sousa
*
AS TEIAS QUE O LUAR TECE
*
Nas teias que o luar tece
Por cima dos pinheirais,
Vez por outra me acontece
Ver longe e ver muito mais,
Mas, de quanto me aparece,
Nunca vi – nunca, jamais! –,
Nessas visões que m`oferece,
Coisas que fossem banais:
*
Vi segredos bem guardados
De vontades por escrever
Atrás de mil cadeados
Qu`inda estão por conceber
Nos traços desencontrados
De enigmas por resolver,
Tão estranhamente esboçados
Que eu nunca pude entender
Por que me foram mostrados
Se não pedira pr`ós ver
*
Vi, nessas teias benditas
Que o luar teceu pra mim,
As mil coisas nunca escritas
Por mãos que fossem assim
*
Vi verdades, nessas teias
Que o luar me quis mostrar
E, depois de as ler, deixei-as
Pr`alguém que as pudesse achar
*
Vi letras de prata pura
Descrevendo esses pinheiros
Com a toda a casta ternura
Dos seus rebentos primeiros
*
Vi a vida que começa
No recomeço da vida!
Vi puzzles, peça por peça,
Sem me apressar na partida
E, como alguém que tropeça
Em causa desconhecida,
Vi tudo a crescer sem pressa
Ou foi-me a vista traída
Tal qual fosse apenas essa
A razão de eu estar perdida,
Sem certezas nem promessa
De encontrar uma saída…
*
Nas teias que o luar tece
À noite, sobre os pinhais,
Vez por outra me acontece
Ver longe e ver muito mais,
Mas, de quanto me aparece,
Não pude encontrar, jamais,
Nas transgressões que me of`rece,
Coisas que fossem banais.
*
Mª João Brito de Sousa
Abril, 2012
*

Olá boa tarde Maria João, gostei tanto deste poema, identifiquei-me com ele, foi muito bom sentir que as minhas dúvidas não são incomuns na procura do significado e sentido nas coisas que me cercam, e as imagens da natureza e da luz do luar para evocar um sentimento de mistério e contemplação, do que existe mas não vejo, apenas intuo. Gostei muito.
ResponderEliminar"Vi a vida que começa
No recomeço da vida!
Vi puzzles, peça por peça,
Sem me apressar na partida
E, como alguém que tropeça
Em causa desconhecida,
Vi tudo a crescer sem pressa
Ou foi-me a vista traída
Tal qual fosse apenas essa
A razão de eu estar perdida
Sem certezas nem promessa
De encontrar uma saída…"
Este sentimento indefinido, como se ao luar, durante a noite enquanto se dorme, as coisas começassem a escrever uma história própria, lenta e autónoma, fora do controle humano, em teias de uma orgânica e lógica própria. E ao mesmo tempo como uma fotografia do momento presente da vida, o agora.
Não sei se é suposto ou aceitável este tipo de leitura, ou "análise", mas sinto que esta poesia é uma forma de comunicação que me emocionou, evocou a imaginação tal como se estivesse a escutar uma música.
Tentei a divisão silábica poética, seguindo as sugestões de leitura que me deu, dentro do que entendi, (e também pude contar com a ajuda inesperada do caro Zé Onofre, Blogger no sapo, temos opiniões diversas em muitos temas e assuntos, mas é uma troca de ideias interessante e educada)
Assim aqui vai uma tentativa que provavelmente vai ser, novamente, um disparate, mas fiz apenas parcialmente para o massacre da paciência da Maria João ser atenuado, e aqui estamos destemidas eu e minha Cotovia protectora ;) espero que não vá estragar tudo e khevrire o sono...
(...)
Vi se/gre/dos bem guar/da/dos (7)
De von/ta/des por es/cre/ver (7)
A/trás de mil ca/de/a/dos (7)
Qu'in/da es/tão por con/ce/ber (7)
Nos tra/ços de/sen/con/tra/dos (7)
De eni/g/mas por re/sol/ver (7)
(...)
Confesso que contei 8, mas depois lembrei da sua preferência por números ímpares e corrigi para 7.
Uma boa noite, Maria João
Abraço forte.🐦
Antes de mais, querida Cotovia, as sete sílabas da redondilha maior (ou quadra popular, embora também muito usada por Camões e Pessoa, entre muitos outros grande poetas) nada têm a ver com o meu gosto pessoal pelos números ímpares: a redondilha maior é uma medida antiga da poesia metrificada/musicada e terá de ser respeitada por todos aqueles que se proponham escrever com o metro da quadra popular, como é o caso de todos os poemas deste blog - o Montanhas, que não serão menores nem menos belas por terem sido paridas por ratitos da literatura, como eu :)
EliminarAinda não foi desta, não... ;) Aqui vai o trecho poético correctamente escandido:
Vi/ se/gre/dos/ bem/ guar/da/dos 7
De/ von/ta/des/ por es/cre/ver/ 7
A/trás/ de/ mil /ca/de/a/dos
Qu`in/da es/tão/ por/ con/ce/ber/ 7
Nos/ tra/ços/ de/sen/con/tra/dos 7
De e/ni/gmas/ por/ re/sol/ver/ 7
As crases, no seu trecho escandido, aparecem frequentemente entre consoantes mas, na realidade só ocorrem entre vogais, com raríssima excepções como é o caso de "por es/cre/ver/" em que a vogal E é absorvida pela consoante R. Mas diga em voz bem alta "por escrever" e verá que a pronuncia em três tempos apenas. Em caso de dúvida, recorra sempre à autoridade máxima da poesia metrificada, a oralidade, ou seja a forma como determinada frase/verso se pronuncia.
Quanto à sua primeira análise, não tenha dúvida de que as coisas - todas elas - estão constantemente "a escrever uma história própria, lenta e autónoma, fora do controle humano, em teias de uma orgânica e lógica própria." Talvez durante o dia isso seja menos perceptível, mas à noite, sob o suavíssimo manto do luar, todo esse misterioso processo se torna tangível. E a própria Ciência sabe muitíssimo bem que é exactamente assim que a Natureza se vai comportando :)
Abraço forte!
Olá Maria João, ainda não foi desta, verdade, mas estou enganada se achar que fiz um mínimo progresso? ;)
EliminarAinda no outro dia, alias noite, madrugada mais precisamente, acordei com o piar da coruja, coisa que achei extraordinária pois ascjanelas da casa são de vidro duplo. Imediatamente pensei...é por isso que a coruja ( e o mocho) é o simbolo da sabedoria. Precisamos estar em silêncio para a escutar.
No ruído dos dias, da modernidade, e urbanidade, deixamos de a ouvir. Sim, a noite é um mistério.
Espero que a sua seja de recuperação agora sem a malfadada medicação e que corra tudo bem amanha na sua consulta, que seja como antevê, rápida.
Abraço muito forte de coragem e coração, Maria João. 🐦
Sim, fez progressos, mas eu é que ainda estou assustada por tê-la assustado sem querer...
EliminarQuando crio fortes laços de empatia com alguém, tendo a ser brincalhona nos comentários e brinco até com as minhas próprias falhas e mazelas. Essa é uma característica muito minha, ajuda-me a enfrentar as inevitabilidades com menor sofrimento.
Agora quanto à sorte que tem em ouvir a coruja apesar dos vidros duplos, também eu tive, em tempos, uns adoráveis amiguinhos pardais que costumavam pousar no meu telhado e que faziam uma imensa chilreada ao nascer e ao pôr-do-sol. Não os vejo nem os oiço há vários anos, creio que com a fobia pelos pobres pombos, acabaram por exterminar tudo quanto era ave, nesta Quinta das Palmeiras
Muito de quando em quando, lá avisto um melrito mais aventureiro e uma gaivota perdida que se passeia sozinha pela calçada, mas aquele enorme bando de pardais desapareceu sem deixar rasto,
Bom descanso e um sono reparador, Cotovia!
percebo, eu também sou assim, saio ao meu pai naquilo que por aqui no ninho chamam humor negro e que só eu e ele, e bem, também a minha filha mais velha, é que achamos muita piada. De resto ficam a olhar para nós as duas, agora as únicas resistentes deste clube do mau gosto em matéria de humor, como se tivéssemos vindo de outro planeta.
EliminarSono reparador, uma noite boa, Maria João.🐦
Bom dia, Cotovia :)
EliminarNisso, creio que saio ao meu avô poeta. :)
Por exemplo, no dia em que fracturei por esmagamento a L2, caí no chão e soltei um grito, não sem antes ter empurrado a senhora idosa para cima da cama, para que ao menos ela não fracturasse nada. Fiquei uma boa meia hora sem me conseguir levantar mas, depois, fiz um enorme esforço, suportei a dor e pedi que me levassem a casa, já que estava em casa de uma amiga. A minha casa fica numa alameda sem acesso a carros e nunca me esquecerei de que fiz o percurso todo, do carro até casa, com lágrimas de dor a correrem-me pela cara e a rir-me em simultâneo do meu caricato caminhar, que mais parecia o de um pato completamente embriagado...
Hoje, como sabe, vou ter pouco tempo para o computador. Tenho mil e uma coisas para fazer antes do MR me vir buscar...
Forte abraço
Bom dia, Maria João, sei sim, hoje vai ser um dia cheio para si, espero que corra tudo da melhor forma possível.
EliminarIsto de gritos tem muito que se lhe diga, ainda hoje lancei um lá no meu sítio da Cotovia e Companhia, ainda não em forma de soneto, mas o trabalho continua, tanto como a defesa da liberdade que é o mote deste mês de Abril, mesmo se pudesse ser o de todos os dias.
Abraço forte, até logo, Maria João 🐦
Boa noite, Cotovia!
EliminarPeço desculpa, mas quando cheguei do hospital almocei tardiamente e tive mesmo de me ir deitar. Nunca pensei foi adormecer tão profundamente que só acordasse depois das 21 horas, que foi o que aconteceu...
Como tenho mil e uma coisas por fazer, guardarei para amanhã a visita ao seu blog, se não se importa.
Forte abraço!
Boa noite!
EliminarNão tem o que pedir desculpa, faz muito bem, o descanso e a saúde são o mais importante.
Continuação de melhoras querida Maria João, um grande abraço!
( A visita ao meu blog não tem importância nenhuma, até é melhor que fique para amanhã, não fosse assustar-se com o grito ;) entretanto vou trabalhando para progredir, como me disse passo a passo, devagar neste caso, e com a minha cabeça de alho chocho, tinha uma dúvida para lhe expor mas não consigo lembrar-me de qual... Paciência, talvez me lembre quando me esquecer de outra coisa... ;) Noite descansada, Maria João.🐦
Tudo bem, Cotovia.:) Aguardarei que se recorde dessa dúvida.
EliminarQue tenha um dia lindo que o meu, hoje, vai ser a saltitar entre tarefas e o de amanhã vai ser, em grande parte, passado no hospital.
Abraço forte
Combinado Maria João.
EliminarEntretanto as tarefas de manutenção do ninho vão continuar, pode ser que assim as influências benéficas da primavera possam encontrar o caminho desimpedido para, senão alguma inspiração, pelo menos alguma calma e pausa. (o meu signo oriental é o Macaco ;) há uma certa dificuldade em gerir o afã e entusiasmo, mas faço o possível para exercitar a auto-disciplina, embora tenha os meus momentos ;) muito úteis para exercitar o humor e a humildade)
Espero que o seu dia acolha entre tarefas o tempo necessário para descanso.
Abraço forte. 🐦
:) Também são tarefas de manutenção da toca, as que hoje me esperam. Mas mínimas, em comparação com as suas, embora eu leve séculos a completá-las... Só receio adormecer de novo e não chegar a fazer nada de nada...
EliminarAbraço forte
:) da toca do lobo? ;) Como correram essas manutenções? De qualquer forma se adormecer será por uma boa causa, para recuperar de um dia como o de ontem.
EliminarTenho estudado, e apesar das dificuldades, através das suas sugestões de aprendizagem, acredito que estou a fazer alguns progressos. Nomeadamente em reconhecer incorreções, falta de fluidez e vocabulário limitado, este último o que mais me perturba, pois quero "escrever" o sentimento sem escrever a palavra e não sou nada bem sucedida. Por exemplo no exercício "vitória" eu não queria especialmente escrever liberdade, mas no fim acabei por incluí-la :(
Uma coisa engraçada que fiz nesse mesmo exercício, foi tentar que as palavras formassem uma figura geométrica, neste caso duas circunferências, seguidas de 3 retângulos horizontais. Não sei se corresponde a qualquer formato ou se é mera futilidade estética, e se for sou uma pateta. Era esta a dúvida que lhe queria colocar, se este cuidado com a forma, que é acompanhado por um crescer e decrescer na métrica da divisão silábica poética faz algum sentido? Ou se é uma coisa leviana ou tonta?
Obrigada pela sua generosidade, esta nossa comunicação e partilha é um presente inesperado para mim, que lhe agradeço de coração.
Espero que hoje tenha um bom descanso e que tudo corra bem amanhã na ida ao hospital.
Abraço forte, Maria João.
Ah, Cotovia, a poesia gráfica/visual foi utilizada por alguns poetas futuristas do séc passado e continua a sê-lo, penso eu... Não tem, porém, absolutamente nada a ver com a poesia metrificada/musical. A poesia metrificada não quer saber de quadrados e rectângulos, é dentro dos tempos - ou pés - do compasso e da melodia que se solta como se solta qualquer sinfonia instrumental...
EliminarEu consegui trazer para o soneto, não a poesia gráfica, mas a sonora ainda mais marcada do que simples melodia do soneto :) A ver se encontro um...
Pronto, aqui vai:
SINAS DE SIBILANTE
*
(a António Giacomo Stradivari)
*
A sílaba sustém-se (as)silabada,
Silente ou simplesmente sussurrante,
Ciente da ciência soluçante,
Suavíssima, secreta, (en)simesmada.
*
Submete-se à sessão silenciada;
Subtil solfejo de aço, sibilante,
Subverte a situação, insinuante,
Supinamente só, sobressaltada;
*
Solta silvos, (a)ssusta, serpenteia,
(A)ssume a suave essência da sereia,
Semeia, sábia, a sã sabedoria,
*
Suprime ou sobrestima a suspensão,
Sofre os silêncios, sofre a submissão...
Subitamente explode em sinfonia!
*
Maria João Brito de Sousa - 24.06.2020 - 10.30h
Abraço forte