ERA UMA VEZ....

ERA UMA VEZ...
*
Era uma vez uma Musa
Que, ao sentir-se atormentada,
Resolveu ficar calada:
Já não canta. Aparafusa.
Aparafusa confusa
Por não estar habituada
Nem à tarefa almejada,
Nem à sorte, que recusa,
De servir quem, de contusa,
Já não serve pra mais nada...
*
MUSA
*
Ó Poeta, estás magoada?
A minha pena te acusa
De em má sorte seres profusa,
Mais do que em rima cantada!
Não foras tão descuidada,
Tão teimosa e tão obtusa,
Cantasses só, alma lusa,
E serias preservada...
Assim, ficas condenada
E para sempre inconclusa!
*
POETA
*
Ó Musa, se não me aceitas
Para o bem e para o mal,
Não mais minha mão te vale,
A ti mesma te rejeitas!
E agora, de que enfeitas
A tua nudez total?
Quem te tempera de sal
Se sozinha não te ajeitas?
Contas feitas e bem feitas
Nosso pacto era ideal!
*
MUSA
*
Poeta, terás razão,
Mas deverás ter em conta
Que sou musa, mas não tonta,
E que, com tanta aflição,
Nunca sei que direcção
Tomar, sem sofrer afronta...
Deixo-te a lira já pronta:
Toma em tua própria mão
O compasso da canção
E a cadência a que remonta.
*
Maria João Brito de Sousa
14.06.2018 – 10.10h
*
Respondendo ao desafio da MEA – Maria da Encarnação Alexandre - , décimas sob o mote “ERA UMA VEZ”.

Comentários
Enviar um comentário