SEM MEIAS-TINTAS


 


Eram simpáticos


medianamente simpáticos


nos seus cumprimentos


e nos seus sorrisos


mais ou menos artificiais


mais ou menos impostos


mais ou menos convenientes


 


Ele


a partir desse dia


aborrecera


flores, lacinhos, veludos e doirados…


aborrecera os meio-doces


rebuçados de hortelã-pimenta


as meias-criações


as meias-paixões


as meias-convicções


e


todas as meias-tintas


que perturbassem


o canto genuíno do melro


o uivo do lobo absoluto


o rosnido do lince interior


 


Sequóias!


Ainda se lhe dessem sequóias


de raiz presa à terra


como as vozes dos deuses menores…


 


Ainda se lhe dessem


esses arranha-céus de fibra e floema


que aspiram aos longes dos astros


mais ou menos longínquos 


e lhe renovassem a promessa


de ascender com eles…


 


Mas tudo o que se lhe cumpria


eram aqueles meios sorrisos


aqueles rictos e rituais


mais ou menos postiços


que afirmavam


agradar ao Deus sem tamanho


a quem atribuíam


todas


todas as autoridades


 excepto a de aborrecer


as meias-genuinidades.


*


Maria João Brito de Sousa – 07.04.2010 – 19.00h

Comentários

  1. Gostei de ler.
    Queria agradecer a sua gentileza e informar que o seu nome já está na galeria de poetas femininas(acredita que gosto mais de dizer poeta, do que poetisa? Parece-me que a poesia não tem sexo, poeta é poeta, e poetisa, soa-me a qualquer coisa menor. ) que é o meu blogue Estive indecisa entre aquele soneto, de que muito gostei e o poema "Cada poema" que me encantou.
    Um abraço e mais uma vez obrigada

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    Respostas
    1. Estou segura de lhe ter respondido, Elvira, mas devo ter clicado no botão errado pois não vejo nada do que escrevi...
      De qualquer forma, tanto quanto me lembro, limitava-me a agradecer-lhe e a dizer-lhe que há duas razões muito pessoais para eu preferir a palavra poeta;

      1- Foi poeta e não poetisa que o meu avô sempre me chamou

      2- Sou sinesteta e, como tal, as palavras aparecem-me associadas a cores. A palavra poetisa, para mim, apresenta uma combinação de cores francamente desarmónica, completamente diferente da palavra poeta que exibe uns tons pastel muito bonitos.

      Um grande e grato abraço.

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