A CEIA DO POETA II

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A CEIA DO POETA II
*



São cinco e meia da tarde,


Mas o Sol arde num grito


Sobre um esboço de infinito


Que espero que alguém me guarde,


Sem pompa nem grande alarde


Sob um bloco de granito…


Espero, espero, mas… hesito,


Sabendo como o Sol arde


Sei que me torno cobarde


Porque o fito ou quando o fito...
*


 


Como não esperar de alguém


Essa mesma hesitação


Quando eu, que vivo em paixão,


Chego a hesitar também?


E quem sabe o que lá vem


Desta humana condição,


Quando o que trai um irmão,


Também trai o pai, a mãe,


E tudo o que lhe convém,


Sem consciência da traição?
*


 


Nesta tarde, às cinco e meia,


Quanto ficou por nascer


Do que alguém tentou escrever?


Quanta estrofe é mera ideia?


Nos quadris de cada aldeia,


Quanto espanto por colher?


Que rimas, das de comer,


Sobram de um poeta, à ceia?


E, se já nada o refreia,


Será que acaba ao morrer?
*


 


Maria João Brito de Sousa


15.04.2017 – 11.44h
***


 


"Le Repas Frugal" - Pablo Picasso






 


"Le Repas Frugal" - Pablo Picasso

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