PARÁBOLA DA FIANDEIRA E DOS SEUS NOVELOS DE LÃ

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(Em dois sonetilhos)


 


I



Dobava honestos novelos 
Da lã mais branca e macia
Que naquela aldeia havia...
(ninguém podia era vê-los...)


 


Dobravam-se-lhe os cabelos 
Em tamanho, e - que ousadia! -,
Quanto mais envelhecia,
Menos podia esquecê-los...


 


Lá dobou até esquecer-se
E esqueceu-se até perder-se
Nos tais novelos de lã


 


Até que, em certa manhã,
Já cansada de assim ver-se,
Corta o cabelo bem cerce...


 


II


 


Fala uma: - Ensandeceu!
Se já não podia erguê-los
Devia optar por sustê-los
Num "puxinho", como o meu...


 


Dizem outras: - Que sei eu?
Curtos, ficam mais singelos...
Para quê mantê-los belos,
Quando assim se envelheceu?


 


A velha, muito alheada,
Doba ainda, ensimesmada
E, perdida no vazio,


 


Esvai-se a voz do mulherio
Que, bem alta, ou sussurrada,
Fiava, sem dobar nada...


 


 


Maria João Brito de Sousa - 25.07.2016 - 15.34h


 


Imagem - "Las Hilanderas" - Velasquez


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