O POETA EM CONSTRUÇÃO

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O POETA EM CONSTRUÇÃO


 


 


(Décimas)


I


 


Deixai-o crescer, deixai-o,


que um poeta com talento


faz, do trabalho, argumento


e como qualquer catraio


vê crescer, de Maio a Maio,


quantos ossos são sustento


do seu corpo em crescimento,


tanta vez sem prévio ensaio


quando a sorte, de soslaio,


lhe dá escória por cimento.


 


II


 


Se persiste, há-de crescer!


Sobre os versos que construa


hão-de brilhar sol e lua


quando um dia alguém o ler,


pois tanto traz pra dizer


que não haverá poder


que se oponha a que se instrua


e da força em que se estua


nunca se há-de arrepender!


 


III


 


Escava a cama da sapata,


bem funda, que a fundação


demanda a força da mão


e a noção mais do que exacta


de que a tua mão contacta


com a mão que amassa o pão


quando assumindo a função


em função de quem contrata


a mão que escava e que acata


o rigor da construção,


 


IV


 


Mas também à mão que escreve


podes dar a mão sem medos


que também moldam seus dedos,


do que tem, quanto te deve


se a estar contigo se atreve


e, pra ti, não tem segredos,


nem te envolve em vis enredos


que outras tecem quando, em greve,


tua mão bem alto eleve


seu protesto, os teus degredos!


 


V


Deixa crescer o poeta,


dá lugar à Poesia,


pois também há mais-valia


numa estrofe quando, erecta,


assume a força concreta


e não esquece a teoria!


Jorna a jorna, dia a dia,


exaltada, ou mais discreta,


burila e escava e completa


o que outra mão calaria!


 


 


Maria João Brito de Sousa - 04.06.2016 - 19.16h


 


 

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