ONDE MAIS NOS DÓI


ONDE MAIS NOS DÓI


*


Onde mais nos dói


é na ferida aberta


pelo momento em que a ceia,


travestida de doçura,


se nos derrama em gelo


sobre a pele nua


e os olhos da lucidez se nos estendem


até ao inesperado veneno


de um cálice que ousámos afastar


*


 


Alguns de nós terão sobrevivido


e permanecido ainda que domesticados,


comprados, vendidos, usados, castrados,


programados, manipulados…


mas gratos,


na montra (in)comum da exposição banal,


conveniente e pateticamente gratos!


*


 


Porque nem tudo o que luz é ouro


e nem tudo o que se trinca é digerível,


muitos terão morrido, tantos terão lutado


e,


um dia,


todos teremos conquistado


o direito a recusar a exibição


de um estatuto gravado a fogo


sobre a carne viva da sobrevivência.


*


 


Maria João Brito de Sousa – 01.11.2013 – 18.40h


 


 

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