PRONTO-A-COMER


 


Quando o dedo do tédio


me aponta as entranhas das coisas vazias,


esquivo-me ao derradeiro anzol


e devoro poesia.


 


Há sempre uma vertigem


quando a refeição


é um vislumbre de saudade


que agarro, tempero


mordo e saboreio


em gestos competentes,


convergindo na degustação das rimas


tantas vezes bravas,


amargas e ásperas,


colhidas nas margens do acaso,


sem forma, sem textura,


a saltar da previsível marinada da reflexão


para a combustão inevitável


da mastigação do primeiro texto que  me seduza


sobre a bandeja da fome imperativa


 


 


prato-poema


 


 …ou  rábula de um tédio


que nunca assombrará


as entranhas vazias


de uma saudade-coisa-aprisionada


por anzóis que a impedirão de ser provada


antes da assimilação do último dos versos


 


 


 


Maria João Brito de Sousa – 24.04.2011 – 17.48h


  


 


 


Imagem retirada da internet

Comentários

  1. Eu, mesmo com coisas prontas a comer... não posso comer! Sendo assim, é melhor comer e saborear poesia.


    Ps. Estou na dieta.... sem frutas, sem alimentos a base de farinha, sem doces, sem arroz, sem feijão! Ah..... É difícil, mas vou chegar lá... onde o peso abaixar.

    Abraço.

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    Respostas
    1. Cuidado com essas dietas, Vera! Às vezes as pessoas tendem a exagerar e não ingerem nutrientes que são absolutamente essenciais...
      Bjo!

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  2. Já fiquei contente por ter passado pelo meu blog :) Agradeço o gesto :D

    E adorei o poeta :D
    (o tempo hoje realmente está horrível :/ )

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    Respostas
    1. Esteve terrível, PaperLife! Eu sempre gostei muito de trovoadas... devo ter herdado isso do meu avô que "se pelava" por poder admirar uns bons raios riscando o céu... mas aquela granizada que inundou Lisboa já foi perigosa e trouxe imensos prejuízos materiais. Acabei por fazer um poema sobre isso, mas saiu-me em redondilhas e vai para o Montanhas, daqui a pouquinho :) Devo confessar que estava muito satisfeita enquanto ia narrando as minhas reflexões sobre a trovoada, mas acabei por achar que o poema estava a sair-me demasiado descritivo e rematei de uma forma muito pouco ortodoxa...
      Vou tentar voltar aí! :D
      Abraço grande!

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