ABUTRES E BEIJA-FLORES


 


Via-os por ali


Hilariantes,


Patéticos fantasmas de abutres


Babando-se de incontida curiosidade




Via-os


Quando se dava ao trabalho de olhar,


Se se dava ao trabalho de olhar





Inacreditáveis somatórios


De infortúnio e pobreza


Muito bem vestidos,


Muito míopes,


Muito desequilibrados,


Muito bêbados


Muito opinativos


E muito pouco inteligentes





Umas vezes


Irritavam-no,


Noutras


Enchiam-no de pena





Alguns,


Mais puros


Do que o bando comum


Pousavam devagarinho


E ficavam


Na imobilidade nervosa


Da sua timidez.





Pequenos beija-flores


Que não chegavam


A beijar coisa nenhuma,


Raros,


Silenciosos,


Bem-intencionados


E belos





Na esmagadora maioria


Dos dias


Nem sequer os via


Muito embora por lá continuassem


Simulando


Uma indiferença


Que só a ele


Legitimamente pertencia.


 





Maria João Brito de Sousa – 29.08.2010 – 01.54hs



 


 


IMAGEM - Stuart Carvalhais

Comentários

  1. Olá minha amiga. Aqui está um poema tb ao meu gosto e ao meu modo. Que não rimo só de quando em vez e nem de longe como tu maria João. Adorei. Quanta coisa subentendida quanta magia poética. Bjs amiga.

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    1. Aqui, Fatima, garanto que há mesmo muita, muitíssima coisa subentendida:)) Nada, aqui, foi feito por acaso, ao contrário da maioria dos meus sonetos.
      Abraço grande!

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  2. Ah esse beija-flores...
    Que se ausenta noite e dia
    Esquecem do nectar da flor
    Que lhe dão durante o dia.
    (risos)

    Abraço.

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    Respostas
    1. Abraço, amiga!
      Reparaste na imagem? É um desenho do Stuart Carvalhais. O meu pai era um fã incondicional das caricaturas deste artista. É um marco da caricatura portuguesa da primeira metade do séc XX.
      Abraço grande!

      Eliminar

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