EU E O SEM ABRIGO


 


Eu vejo,


Eu vejo e não digo,


Não digo nada a ninguém,


Um pobre e velho mendigo


Que não diz nada, também.


 


A cada dia que passa,


Mais pobre fica… envelhece,


No velho fato que esgaça


De um tempo que nunca esquece.


 


Já foi jovem,


Já foi rico – talvez só remediado –


Um dia teve um emprego


E hoje, velho e reformado,


Uma bengala de cego.


 


Nasce algum ressentimento


De lhe ver, em cada dia,


Marcas desse sofrimento


Que a ninguém desejaria.


 


Identifico-me, eu sei…


Mas num tempo em que era” rica”


Também me identifiquei


E, se quem me lê, critica


 


Pois tanto lugar-comum,


Tanto dizer que lamento


Não lhe quebra esse jejum,


Nem o tira do relento…


 


Talvez devesse, talvez…


Talvez devesse calar-me,


Não me impor tantos porquês


Que nunca irão ajudar-me…


 


Mas, se o senti, está sentido 


E em verdade vos digo;


Antes fora empedernida!


Antes tivesse mentido…


Não fosse ele um sem-abrigo,


Tivesse ele opção de vida!


 


 


Maria João Brito de Sousa – 10.05.2010


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

Comentários

  1. VIDAS


    Uma esperança morta...
    No vão duma porta
    Descansa um velhinho;
    Um pobre mendigo
    Sem lar, sem abrigo,
    Sem ter um carinho

    Cabelos enormes
    As barbas disformes
    Um olhar bem fundo
    Seu corpo fenece
    Tão magro, parece
    Não ser deste mundo

    Um velho chapéu
    As pernas ao léu
    Que a calça está rota
    Um casaco velho
    Por sobre o joelho
    (O frio se nota...)

    Mas pouco descansa
    Suportando a lança
    Que a vida lhe deu
    Já nada o conforta
    Nem o vão da porta
    Nem pensar no Céu

    Lamentando a sorte
    Vai pedindo a morte
    Rezando orações
    Vida triste, ingrata…
    Bem perto um magnata
    Vive com milhões!

    Conforto diferente:
    Um na fome sente
    Desgosto profundo;
    Outro, cheio, dorme
    - Oh que fosso enorme
    Se cava no Mundo!

    Joaquim Sustelo
    (editado em UM POUCO DE SOL)

    Tudo isto para dizer que o teu poema me impressionou. És duma enorme sensibilidade.

    Um beijo
    Sustelo


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    Respostas
    1. Obrigada, amigo Joaquim! O teu é lindíssimo!
      Ando para aqui de volta do correio que está muito cheio... vou ter de enviar alguns mails por causa do evento dos Espantalhos.
      Abraço GDE!

      Eliminar

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