O SINDICATO DO HOMEM-BARATO

 


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(Poema jocoso)


 


 


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Vendo-me por tudo,


Vendo-me por nada...


Sinto-me, contudo,


Quase imaculada


Pois sou o produto


Dessa alma castrada,


Vestida de luto,


Sempre amargurada,


Dentro do reduto


Em que fui gerada.


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Vendo-me por muito,


Vendo-me por pouco…


 


Se tens o intuito


De chamar-me louco,


Não venhas fortuito


Porque eu cresci mouco


Dentro do circuito…


Penso que estás rouco


Inda me descuido,


Vais corrido a soco…


Nem pouco, nem muito;


Nunca em ti, me foco!


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Se alguém me promete


O que quer que seja


Logo se derrete,


Em mim, esta inveja


E o Diabo- a-sete…


Onde quer que esteja


Faço logo o frete;


Largo esta cerveja,


Escondo o canivete


Onde ninguém veja!


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Eu porto-me bem,


Sou mulher decente!


Escolho o que convém


Mais a toda a gente…


Sinto-me refém,


Mas não estou doente


E o homem não vem,


Mas eu estou contente


Pois há sempre alguém


Menos indolente…


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Visto a saia nova,


Vou p`ró arraial.


Vou fazer a prova


Porque eu, afinal,


Levei uma sova


Daquele animal!


Ninguém me reprova,


De um modo geral,


Por deixar a cova


Para o funeral…


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Somos criaturas


Muito sonhadoras!


Temos armaduras


P`ra todas as horas


E almas muito puras,


Sogros, filhos, noras,


Nestas nossas luras


De procriadoras...


Nada de aventuras!


Nós somos senhoras!


 


Sou do sindicato


Do homem-barato.


 


Nós somos pacatos


E temos paciência,


Lavamos os pratos


Com eficiência


E, nos nossos actos,


Fingimos clemência…


Não há desacatos


Nem há turbulência!


Temos belos fatos


E boa aparência!


 


(Ai, o sindicato


Deste homem-barato...)


 


 


Maria João Brito de Sousa - 25.11.2009 - 15.30h


 


 


Nota - A palavra sindicato, neste poema jocoso, não tem o seu sentido denotativo comum, referindo-se - neste caso, friso - a diferentes tipos ou variantes de características humanas, evidentemente caricaturadas e ficcionadas, muito embora retiradas da vida real.


 


 


 


 

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