DESTA ÁGUA NÃO MAIS BEBEREI

 



 


Rasgam-se montanhas.


Fundem-se correntes.


Gritam, metálicos gritos,


Engrenagens de um tempo


Que alguém transformou


Em rodas dentadas


E os meus braços, estendidos como limos,


Impotentes, cansados,


Pedem utopias


E alcançam memórias


De crianças que me amaram


Mal as pus no mundo.


 


Mãozinhas que me arranhavam a cara,


Pezitos minúsculos que eu beijava


Como se fossem a única coisa


Que merecesse a doçura do beijo.


Vozitas agudas que me chamavam Mãe...


 


Farrapos de memórias,


Fragmentos de um amor que não voltará,


As meninas que sobreviveram


Às crianças que foram,


Não sabem nem sonham


O quanto as amei...


 


As belas asas que lhes teci,


Dia após dia,


Arrancou-lhas o mundo lá de fora


Pena a pena


E eu choro por elas


E pela menina em mim


Que hoje não consigo ressuscitar...


 


 


1994


 

Comentários

  1. Boa tarde amiga, que poema bonito, mas há tanta dor, tanta saudade e tanta desilusão, que eu pergunto!
    Onde está a esperança? vejo que é um poema já com alguns anos, será que passado este tempo todo, este poema ainda faz sentido?
    Um grande abraço

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    1. ora esta! Então agora até já deixo "escapar" comentários? E foram os dois seus!
      De certa forma, sim, este poema continuaria perfeitamente actual se eu não tivesse aprendido a descobrir outras ilusões e me não tivesse dedicado à pintura e á poesia, de corpo e alma. Outras desilusões chegaram hoje, por correio. Vou mesmo ficar sem net, desta vez é que é, por isso lhe vou ter de enviar umas coisinhas ainda hoje e pedir-lhe uma série de opiniões sobre aquilo que já fiz.
      Até já!

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  2. OLÁ AMIGA João. Diz o ditado que recordar é viver novamente o passado. É verdade e é bom quando esse passado se recorda com alegria, mas parece-me que neste caso a recordação é algo nostálgica, estarei certo? Eu gostava de estar errado. Um grande abraço Eduardo.

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    1. É muito nostálgica e muito magoada, sim, amigo, mas é um poema escrito há quinze anos e nós aprendemos a sobreviver a tudo e mais alguma coisa. Eu aprendi.
      Abraço grande!

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    2. Olá amiga. Foi provavelmente numa fase mais triste da tua vida. todos nós passamos fases mais negras e menos, é mesmo assim, só há o mais porque há também o menos e vice-versa. Felizmente para ti que aprendeste a sobreviver. Abraço Eduardo.

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    3. Estive quase a ver que não, amigo, mas acabei por sobreviver mesmo! mas não foi nada fácil, acredita.
      Abraço grande.

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    4. Amiga. Não tenho a menor dificuldade em formular uma ideia de como deve ter sido difícil. Mas é assim. Nós temos mais capacidade de sobreviver do que nós pensamos. Abraço Eduardo.

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