ANAMNESE

 


 Por aqui passo tão leve,


Num passo largo e tão breve,


Que ninguém me vê passar...


 


Passo sem deixar pegada


Na terra ou na erva mansa,


Deixo aqui uma palavra,


Deixo ali uma ternura


Nos braços de uma criança...


 


E passo tão de repente,


Tão brevezinha e sumida,


Que, mesmo sem estar escondida,


Não passo por entre a gente...


 


Passo tão leve que o céu


Não está mais perto que eu


Das aves e das estrelas


E, de tão leve passar,


Eu já não sou eu... sou elas.


 


Poderia ser fantasma,


Erva do prado, criança,


Brisa que sopra no Verão


Ou leve sopro de esp`rança...


 


Um dia, quando chegar


A hora de não voltar


A passar, nem levemente,


Mesmo assim há-de ficar


Um pouco de mim a amar


Dentro de cada semente


 


E um pouco de mim no vento,


Quando sopra de mansinho


E um pouco de mim, sonhando,


No oco de cada ninho...


 


Hei-de ficar tão de leve


Quanto passei pela vida


E ninguém me encontrará


Mesmo sem eu estar escondida...


 


Que eu não quero ser ninguém


Pois ninguém me conheceu.


[por isso nunca fui Eu]


 


Se ninguém me conheceu,


Como posso ser esquecida?


 


 


Nota - Poema não datado, escrito aos meus vinte e poucos anos, se bem me lembro...

Comentários

  1. Olá amiga Afinal tu já nasceste poeta. Filho peixe sabe nadar. E já na idade em que ainda se diz: É uma criança. Já não eras assim tão criança. Não meças o artista pela idade, e nem o homem pela altura. Parabéns E obrigados, porque o meu blog são mais teus do que meu. Um abraço. Eduardo.

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    1. Olha que eu acho mesmo que nasci poeta, amigo Eduardo. As primeiras rimas que ainda por cá andam, escritas pela mão do meu avõ, são de quando eu não tinha ainda três anos. Vou-te deixar uma:

      ó borboleta da noite,
      ó linda do coração...
      ó borboleta da noite
      pousa aqui na minha mão!

      Neste momento não sei onde guardei os papelinhos em que o meu avõ as escrevia. A minha casa é um depósito de animais, quadros, livros e papéis escritos e desenhados e como a minha memória já não é o que era, guardo tudo tão bem guardado que depois nem me lembro onde guardei... isto cada vez me acontece mais e também é certo que cada vez tenho mais papéis...
      Abraço grande.

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    2. Assim sendo Temos que fazer jus ao ditado: Filho de peixe sabe nadar. E o armário, ainda não abriu? Eu tenho algo que me diz que ele vai abrir, só estou a achar muito tempo, para o oleo se infiltrar. Abraço Eduardo.

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    3. olha que já tentei várias vezes e continua a não dar...
      Acho que não estava ferrugenta... deve estar é partida lá por dentro.
      Abraço grande.

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    4. Olá amiga João. Um dia qualquer, nós combinamos, e eu vou aí ver o que se passa. nesse dia convidas as tuas duas ou três, já não sei quantas são, as tuas amigas que eu quero conhecer as que ainda não conheço, e fazemos aí um piknik . Abraço Eduardo.

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    5. Olha, é a D. Isa e a D. Fernanda mas, às vezes, também aparece a D. Palmira, a Nati e a D. Maria José.
      Mas o grupo é composto por nós, as três Marias. Acho que a D. Isa já perdeu um bocadinho a vergonha, mas a D. Fernanda não sei... é uma senhora muito recatada e muito raramente vem cá a casa. A casa é mesmo um zoológico e um armazém de livros e quadros. Penso que ela não se sente muito confortável aqui. Agora já tenho um canal de TV, mas antes não tinha e ela só deixa de ver TV para ir ao cafezinho. Mas depois se vê.
      Abraço grande.

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